quarta-feira, 17 de junho de 2015

Tabaco, um bem comum


Eu andava na rua ao lado de Guido enquanto ele se lamuriava de sua saúde. Estava ele me falando justamente de um mal novo que lhe atacara a garganta, fazendo-o tossir muito, por vezes expelindo grossas placas de muco, (preciso dizer que Guido é um tremendo hipocondríaco, um doente imaginário, sempre aparece com suas histórias absurdas de como conseguiu seus males). Para cortar logo aquela chateação, pois não gosto de ficar ouvindo choramingos dos outros, principalmente quando se falam de saúde, ou de má saúde, então para cortar aquilo de uma vez interrompí-lo bruscamente perguntando se não sabia das novas pesquisas com tabaco.
- Como? Tabaco? Do que está falando?
- Ora, ora. Sim, tabaco. Há tempos andam estudando e fazendo experimentos com a erva e finalmente obtiveram frutos. Bom, frutos na pesquisa, está claro. Acontece que se está atribuindo novos valores medicinais ao tabaco. Ele agora é a Panaceia da atualidade! Veja bem. Se está por exemplo com prisão de ventre, faz-se um chá das ervas e junto enrola-se um cigarrilho. Enquanto toma o chá fuma-se tranquilamente o cigarro, mas esteja preparado, pois o efeito é imediato. Logo não terás mais que se importunar com as dores.
- Não me diga! Isso é sério mesmo? De gente de confiança?
- Claro! Gente de primeiríssima classe, estudados, esteja certo. Pesquisadores incansáveis! Mas preste atenção. Ainda se por acaso tiveres alergias na pele, como aquelas manchas horríveis que atacam o Praxedes durante toda a primavera e o verão, pode também utilizar do tabaco para alívio imediato das dores, e no final de pouco tempo estará curado para a vida desses males. O método é simples, junta-se um pouco de tabaco picado à algumas gotas de água, mexe-se bem os dois e faz-se uma pasta que se aplica nas manchas. Pronto! Imagina se o Praxedes tivesse feito isso logo no começo, não andaria sempre com aquele gorro metido na cabeça cobrindo toda a orelha, suando sempre como uma lontra.
- Ora isso para mim soa como algo fantástico. Imagina que no meu caso eu teria dificuldades de comprovar isso, pois...
- Mas que absurdo! Não diga isso. Tenho certeza de que se tentar vai notar tamanha diferença. Estará muito mais feliz e despreocupado. Aliás, soube também que pode-se usar a ervinha mágica para problemas da garganta e do pulmão.
- Ah, essa é boa agora.
- Palavra! Por certo não tenho a necessidade de lhe explicar o método nesse caso. Mas digamos que basta enrolá-la no papel e acender. Antes de tragar a fumaça faça leves bochechos e gargarejos. Vão beneficiar sua garganta...
- Ah, me perdoe mas agora eu acho difícil acreditar.
- ... Pois agora me lembro. Você não estava tentando para de fumar?
- Uh! Há anos que tento. Tenho sempre o último cigarro à mão para tentar parar. Mas acredito que entrei num círculo do qual não consigo sair.
- Pois aí está! Eu lhe juro que não precisará nunca mais se preocupar em ter que parar de fumar. Basta que use da forma correta o tabaco.
- Pois se é justamente o tabaco o problema!
- Precisamente! Precisamente por isso. Veja, veja bem. Nesse caso se faz um efeito inverso. Fuma-se o máximo que se consegue no menor tempo possível. Você que é um fumante inveterado demorará algum tempo para isso. Mas pense que depois de certo tempo começará a ter enjoos, suadouro, tontura, mas nem por isso deixará de fumar. Fume por mais um pouquinho só e estará livre desse terrível mal. Duvido que alguma vez mais porá um cigarro à boca.
- Ora, basta. Creio que se não apertar o passo não chegarei à tempo ao escritório. Até mais ver, ein.
- Até logo mais, Guido. Passe lá em casa qualquer dia à tarde para conversarmos mais. E mande saudações a vossa senhora!

Guido acelerou o passo e antes mesmo que eu pudesse terminar de falar já não o podia ver mais. Pelo menos agora podia aproveitar a minha caminhada com mais tranquilidade, sem ter quer interromper meus pensamentos por mais ninguém. Já estava ficando difícil acompanhar seu ritmo cada vez mais rápido por causa de uma pequena dor que me atacou a perna direita na semana passada, logo acima do joelho. E pensar na incrível quantidade de pequenas engrenagens que existem só numa perna para que esta se movimente. Não foi por menos que essa dor me apareceu no exato momento em que tive consciência disso. Acho que vou comprar uma bengala.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Cenas Cotidianas

O homem que olha triste para a menina que atravessa a rua, distante.
A biruta, em cima da torre, que se desfaz em pássaros.
O cigarro, esquecido na boca, que se desfaz em cinzas sobre a calça.
O dia que se esvai, sem ser aproveitado, com as pessoas roubando seu tempo.
As pessoas, que não olham ao redor, com medo de lhe roubarem algo.
Ou ao contrário, de lhe darem algo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Ode a Ti

Falo de sua pele, de seu nariz
e de suas orelhas.
Contemplo seus olhos, seu sorriso
e seu perfil.
Me inebriu no odor de sua pele.
"Poderia viver aqui"
Respiro fundo e sinto que consumo
uma parcela de ti.
Pouco a pouco vou te consumindo ao
longo dos anos.
Para no final possuir, então, você
por completo dentro de mim.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ausência

A falta do corpo, a falta do calor.
O surgimento do sentimento.
Parece que estou em outros tempos
e que não posso realizar.
Vivo no sonho.
Tudo que é concreto é podre.
TUdo que se torna concreto apodrece.
Encurralado pela minha personalidade.
Cerco feito pela mediocridade.
Soluço à beira, eternamente.
Fotogramas se mesclam com a sujeira.

A ausência é sentida com mais intensidade
do que a presença mais forte.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Fique

Hoje;

hoje não me deixe sozinho com um livro.

Deixe pelo menos seus braços,

que já me enrodilharam.

Deixe a proximidade que alcançamos.

Deixe os seus dentes

que me mordem carinhosamente a pele.

Deixe os arrepios que me dava.

O seu sorriso matutino

lento e preguiçoso.

Deixe aquele beijo que me deu na face

tão sincero e súbito

que me tirou o fôlego.

Deixe a si mesma

pois que tudo isso não é nada

sem você para juntá-los.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Dormitar

Dormir nos teus braços,
perigoso de nunca acordar.

Doce o sabor dos teus lábios
Suave o toque dos teus dedos

Num leve dormitar

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sempre

"...Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim - ponto final

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Murmúrio

Por mais realista que possamos ser, eu ainda gosto de pensar na existência de algo mais puro e inocente, involuntário. Algo que percorresse nosso corpo sem ter que passar antes pelos caminhos racionais do cérebro. Algo que fosse intocado pela lógica.

No fundo o que eu queria era algo animal, instintivo, táctil mas não pensável.”

Murmurou ele em meio ao seu sono confuso.

Seus Olhos

Procuro os olhos da cobra
Que me escapam constantemente
Como sua fria pele
Que me ficam por entre os dedos


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ti


Vendo sua vida passada, eu sinto que não vivi.
Vejo sua alegria, seus sofrimentos, suas dúvidas; sinto que não vivi.

Se eu fosse grande, muito grande,
Te pegava com os dedos em pinça.
Te colocava dentro de meus olhos.

Para te ver todo dia.
Para te ter todo dia.



O futuro vem aí.
E nele eu estarei ou não.
Estará a eletricidade de pele em pele?
De lábio em lábio?
Seus lábios nos meus?
Seus lábios frios?

Estará você em mim?
Ou eu em você?
Estaremos os dois,
Os apenas um?

Seremos um,
Ou seremos nada?

Seremos

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Dizendo adeus?!

Dizendo adeus?!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Camille

Ela me olhava à distância com a cabeça meio de lado enquanto eu observava em vão o mar. Dei de ombros e me virei para ela:
- Logo chegaremos, e seu tempo terá terminado.
- Tenho a vida inteira pela frente. Isso não depende de mim.
Eu me sentia ridículo com meu terno branco em meio àquele lugar de clima tropical. Meus sapatos de verniz eram chamativos e inconvenientes, mas não tinha mais o que vestir. Ela havia jogado tudo no mar. Pela fúria ou pela graça. Eu nunca sabia se ela estava realmente irritada ou se estava fazendo piadas. Jogar minhas roupas ao mar pode ter sido uma de suas piadas, mas também pode ter sido uma demonstração clara de raiva. Com outra pessoa isso seria fácil de se descobrir, mas ela não era outra pessoa. Ela era Camille; indecifrável. Olhava em seus olhos e via apenas meu próprio reflexo, nada além disso. Ela me refletia como a evitar que eu visse algo em seu interior. Como um espelho que reflete e esconde o que existe atrás dele. Ela se escondia, por medo ou por esperteza.

Naquele dia, à tarde, eu havia feito uma pergunta a ela:
- Onde esteve? O lobo te pegou no caminho? – mostrei um sorriso enquanto dizia essas palavras, mas logo ele desapareceu, quando percebi que seu olhar havia se tornado baixo, escorregadio. Tentei encontrá-lo, crente de que bastaria me deparar com ele para descobrir a verdade impronunciável, mas quando enfim o agarrei não tive certeza. Era vazio, longínquo. Meu corpo gelou em fases; primeiro o peito, depois as pernas e por último a cabeça. Senti o horizonte se entortando. Ela deslizou para longe e eu vi a cena quadro a quadro.

Quando me recuperei fui ao seu encalço. Ela estava de costas e já segurava minhas roupas em suas mãos, apertando-as firmemente. Correu pela porta, se debruçou no corrimão do navio e lançou-as ao mar. O vento as fez circularem e dançarem em muitos movimentos, por um longo tempo até caírem suavemente na água ondulante do mar. Assisti a isso junto dela. Eu olhava as roupas, ela o horizonte. Seus olhos pareciam marejados. Antes da conclusão ela virou-se e começou a andar pelo corredor. Fui atrás gritando que me contasse a verdade:
- Camille! Camille, me diga a verdade. Diga agora. Eu quero saber.
Ela continuava como se nada escutasse, e talvez não escutasse mesmo. Pensei novamente que ela devia ser culpada, e se sentia muito culpada, por isso agia assim. Mas logo pensei que talvez não tivesse culpa alguma e que a minha cruel pergunta fosse uma afronta a sua candura. Pensei em pedir-lhe desculpas, pensei em me ajoelhar. Não poderia perdê-la. Mas logo me lembrei de como seus olhos haviam se tornado escorregadios no exato momento em que lancei a pergunta irônica. Isso me fez reconsiderar o momento e uma raiva me subiu pelo corpo como nunca antes. Logo estava tomado pela fúria e corri até ela:
- Diga a verdade agora Camille! – eu gritei barbaramente segurando-a pelo magro pulso.
Sentia suas veias pulsando debaixo de meus dedos. Ela não ousava me encarar.

Novamente eu senti a insanidade me tomando, levantei seu braço e o joguei com força, dando-lhe um golpe com a palma da mão aberta na face esquerda.
- Puta! É isso que você é!
Logo depois parti cego de volta ao quarto. Bati a porta e me coloquei no chão de joelhos. Havia recebido um golpe invisível. Agora tudo estava acabado. Eu a tinha perdido. Senti algo passar através de mim e uma lágrima pular para o chão. Nunca mais a veria. Por um momento pensei que seus olhos úmidos em direção ao horizonte fossem prova concreta de sua alma magoada por palavras vis. Pensei em me arrepender, e me arrependi, mas ao mesmo tempo não poderia tolerar a possibilidade mesmo que remota de que algo havia acontecido, de que ela não era mais pura. Arrependido, resolvi dar adeus.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Solidão

- Bom dia, senhor. Estamos aqui para o reparo no cabo.
- Sim, entre, entre.
- Com licença; onde está o televisor?
- Ali. Fiquem a vontade. Querem tomar um café, um refresco?
- Não, obrigado.
- Uns biscoitos, então? Talvez uns pães de queijo?
- Não, muito obrigado, senhor.
- Entendo. Mas fiquem a vontade. Podem tirar os sapatos se quiserem.
- Não há necessidade, senhor. O senhor está com o sinal intermitente?
- Sim, é isso. Digo, não. Na verdade não.
- O que quer dizer, senhor? Não foi por isso que nos chamou?
- Veja, eu sou um homem muito solitário. Sou velho como podem ver e meu único parente vivo é meu neto. Mas ele é tão ruim quanto eu. Não sai de casa para nada, quem dirá para me visitar.
- Er, senhor...
- Eu fico muito solitário, aqui, sozinho, sem amigos, sem familiares. Os vizinhos são preocupados de mais com a segurança e vivem trancafiados dentro de suas casas. Nem olham para janela com medo de dar motivo a alguém. Se me aproximar deles na rua, quando saem, é capaz de começarem a gritar. Então com o tempo eu vou ficando assim, triste, murcho, começo a ter prisões de ventre horríveis.
- Mas espere, senhor. O senhor...
- Olha, eu nem vejo televisão! Acho que é a imagem da besta, como dizem por aí. Mas nesses últimos anos eu acabei por ter muitas coisas que não queria. Por medo de ficar sozinho.


- ...o senhor nos pode ver aquele café?
- Arárá! Maravilha! Claro, claro. Num minuto.
- *vamos embora*.
- Mas digam, de onde são os rapazes?
...

Sua Mãe

De repente ele olhou bem para a folha de papel que estava à sua frente, em cima da mesa, e não via mais aqueles desenhos incríveis que ele fazia sempre. De repente descobriu que não tinha talento. Olhou para a folha de papel e viu apenas manchas de tinta. Manchas de cores indefiníveis e sem formas perceptíveis. Olhou em volta e não viu a casa magnífica de sua mãe. Não viu tudo organizado, belo e cheiroso. O que viu na verdade foi uma casa abandonada, escura, suja; paredes ruindo e um fedor insuportável no ar. Ele correu pela casa desconhecida e percebeu que tudo estava no mesmo lugar: o banheiro era à esquerda e à direita os quartos. Mas tudo estava diferente. Tudo estava destruído. Os móveis quebrados e jogados no meio dos cômodos. O lixo espalhado pelo chão; e no meio disso tudo ele não encontrava sua mãe. Até alguém bater na porta e ele demorar a atender e finalmente atender e pessoas falando coisas sem sentido, palavras estranhas e agarrando-o e lutando, porque ele também estava lutando mas não podia pois eles eram mais fortes e maiores e muitos e ele foi levado a um lugar em que uma mulher muito simpática tentava contar-lhe que estavam tentando o ajudar, que sua mãe havia morrido e que ele agora estava sozinho no mundo com exceção dessas pessoas que tentavam o ajudar, mas ele negava e negava, porque se lembrava de ter visto sua mãe há muito pouco tempo e que ela esquentava a sopa para ele e o afagava o cabelo como sempre fazia e que ela não poderia ter morrido porque ele fazia parte dela e se ele estava vivo ela também estava, assim como seus incríveis desenhos que fazia em papel canson com tinta e sua mãe sempre dizia que eram realmente incríveis e o afagava como sempre a cabeça; e não sentia as mãos alheias que o tocavam enquanto sua mãe o afagava o cabelo como sempre, nem a agulha que espetavam nele e ele se sentia bem e a solução que o injetavam enquanto sua mãe o afagava e o colocavam na cama amarrado porque sentia-se bem, porque sua mãe...

sábado, 5 de dezembro de 2009

Tragédia

Então ele pegou a faca e gritou: “Nunca conseguirá! Te levo ao inferno antes!”
Saiu correndo em sua direção brandindo a faca, mas o grito da amada o fez parar: “Amor, por favor pare. Se fores preso nunca mais ficaremos juntos.”
- Mas Joselha, não vê que se eu não matá-lo agora ele nos matará?
- Antes morrermos os dois por nossa própria mão do que matar e sermos condenados a uma eternidade separada.

Enquanto isso o covarde Ananias se esgueirou por trás de Jofre e enfiou-lhe a faca pelas costas, fazendo-a sair pelo ventre. Joselha, quando viu o sangue brotar inexplicavelmente do ventre de seu amado, ajoelhou-se no chão e ficou muda de surpresa. Logo Ananias mostrou sua cabeça horrível por cima do ombro de Jofre com um sorriso esgarçado e apavorante.

Joselha, vendo isso lançou seus olhos ao choro, mas junto lançou seu corpo na direção dos dois corpos com uma fúria sem igual. Colocou com violência seus dois dedos nos olhos de Ananias que reagiu com um grito penoso. Ananias largou da faca e saiu cambaleante, de costas, gritando e balançando as mãos freneticamente.

Nesse mesmo momento, Joselha agarrava a faca que estava nas costas de seu ensangüentado amante, puxando-a com verdadeira força descomunal. Ananias ouviu o longo silêncio que antecedeu o breve grito antes de sentir sua cabeça ser empurrada.

O corpo do covarde Ananias feriu o chão com violência quando caiu. Sua cabeça estava com um chifre de metal ensangüentado. Próximo dele estava Joselha arfando ruidosamente. Quando recobrou sua conciência correu para perto do corpo do pobre Jofre que já estava inerte. Suas lágrimas enchiam seus olhos e corriam para o peito defunto.

Mas então Joselha tomou conhecimento de seu futuro miserável e decidiu-se. Em poucos segundos correu até o miserável Ananias, arrancou-lhe a faca da testa fria e cravou-a no próprio peito, ainda em tempo de chegar ao lado de seu defunto noivo e cair demoradamente, tão leve quanto uma pluma em seu ventre.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ache as linhas certas

Eu entrego o poder a você. Você sucumbi a ele. Eu entrego o poder a ele...
Deixe o poder com o poder.

A fé move soldados, também.

Quando um não quer, dois não brigam; ou não.

O Olhar penetrante e inquisidor, como que perguntando: "Questione-me; estou pronto, e você?"

É você que me quer? Tenha-me!

O Sono me nocauteia. Arranca a espada de minhas mãos. As palavras me atingem mas o sangue não brota das feridas. Estas serão para sempre presentes, e através delas nada mais entrará.

Decepção... Alvo de.

Flôr bela espanca, depois de ser espancada. Trata-se não de vingança mas de sobrevivência.

Vamos democratizar. Votamos mas influenciamos. A água sempre acha um caminho.

Caeem-se os pelos, fica a autoridade.

As fotos que trago na mente são de você.

O progresso progride para trás.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pés Apressados

Quando eu passei por ela, ela me apontou o cadáver do cachorro no chão. Tão frio e estranho, exalava morte. Seus olhos não demonstravam emoção, apenas observava.
- Está aí há muito tempo?
- É melhor tirá-lo daí enquanto as memórias não chegam – disse deixando escapar um soluço.
A pena que senti dela se confundia com a minha própria emoção. E mesmo assim não sei porque senti isso por ela. Ela foi embora correndo, escondendo o rosto entre as mãos.
- A vida é passageira. – disse repentinamente o ser desconhecido apoiado no umbral da porta - Nos atravessa em segundos e quando chega ao outro lado tudo fica melancólico e sem sentido. O cheiro que está sendo liberado nos envolve como um anzol. Para nós que estamos observando deste lado, tudo parece escuro e sem esperança. Quem saberá o que existe do outro lado. Uma viagem que os curiosos pagam com a vida. Ainda assim nosso egocentrismo nos fará esquecer isso tudo rapidamente para podermos voltar a olhar para nossos próprios pés enquanto caminhamos rumo ao seu encontro. Agora mesmo, para você isso tudo parece desconcertante, sente-se desconfortável, não sabe como se sentir.
- Justamente por não saber é que não tento descobrir; apenas sinto. Todos tentam entender, descobrir. Ninguém sabe o que aconteceu aqui.

Parti para a rua. Caminhei olhando meus pés apressados, enquanto meu corpo continuava a andar lentamente. Meus pensamentos se revezavam e se renovavam não ficando nenhum por mais do quê alguns minutos. Todos eles passavam debaixo de minha vista sem serem vistos. Pensamentos que nunca mais encontraria. Mas não tinha importância.
Encontrei-a com os olhos, parada na esquina a olhar o poste de luz. Estava banhando-se com a luz, tentando se purificar talvez.
- Estamos sujos e poluídos até o final.
Ela pareceu entender, pois baixou a cabeça. Olhou-me com olhos tristes e espelhados. Parecia perguntar algo, algo que eu ainda não conhecia. Encolhi os ombros e desviei o olhar, mas ela continuou a me perguntar silenciosamente.
- Sou uma farsa. Não sei de nada.
Ela já sabia. Só estava querendo se vingar de mim daquele jeito. Mas não fez mais do que aquilo. Percebi sua expressão altiva, quase rindo-se, porque eu não sabia. Aquilo era o suficiente para ela. Sentia-se melhor.
- Eu ainda tenho esperança de conseguir me limpar na luz, mesmo sabendo de tudo isso. Ingênua.
Ela era caridosa, não conseguia me humilhar por muito tempo. Logo depois me entregava de novo o poder e eu o empunhava orgulhoso e desprotegido. Dessa vez fui eu que sustentei um leve sorriso. Ela deixou que eu a escoltasse de volta a sua casa.

Retornando sozinho, eu perdi de vista meu orgulho e voltei meus olhos para os pés apressados que me moviam.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Nossos Olhos

Teus olhos me hipnotizam.

Olhos. Alguns com tanta coisa. Outros com tão pouco.
Já vi olhos inexpressíveis. Não mostravam nada. Pareciam vazios de tudo.
Achei que eu é que não conseguia enxergar ali dentro.
Agora sei que realmente existem olhos vazios.

Olhos são espelhos. Vemos o que queremos.
Atrás deles não existe nada. Existe um mistério.
E no reflexo existe você. Não pode ver o que não conhece.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Auto-retrato

Minhas personagens não são uma parte de mim, mas um pedaço de um pensamento momentâneo. Não têm rosto, não têm feições, não têm defeitos ou virtudes. São meros títeres enroscados em seus cordéis. Puxo uma perna e a boca se abre, puxo outra e o braço se mexe.
Sou, eu mesmo, meu títere desengonçado. Talvez um titereiro aleijado.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Infância

Ela passava naquela rua todos os dias. E eu estava sempre por lá. No primeiro dia eu estava lá a mando de meu pai. Tinha ido buscar uma caixa de tâmaras como pagamento por um serviço. E então ela passou, passou por mim sem nem me perceber. Mas eu a notei, a segui com os olhos, e notei as curvas que seu vestido fazia ao vento. Ela carregava uma cesta enorme no topo da cabeça e tinha apenas um braço levantado, apoiando a cesta.

No dia seguinte dei um jeito de escapar de meu pai e fui para a mesma rua para esperá-la. Era uma questão de acaso mas ela passou novamente pela mesma rua. E desta vez ela me olhou pelo canto dos olhos, para não derrubar a cesta enorme, e mostrou um leve sorriso de reconhecimento. Isso foi o suficiente para me instigar. Fui imediatamente falar com ela. Nunca fui tímido, então corri até ela e disse:

- Olá, meu nome...

Ela se assustou e deixou a cesta cair no chão, espalhando todos os pães que trazia no chão.
Ela olhou para os pães com desânimo e depois me olhou com um sorriso estranho, como se escondesse algo atrás dele.

- Que quer?
- Escute, eu te ajudo com os pães se você for comigo tomar um copo de leite. Eu tenho uma moeda.
- Uma moeda não dá para dois copos de leite.
- Nós damos um jeito – eu disse arrematando com o meu melhor sorriso.
- Caia fora, já tenho noivo – disse ela como se zombasse de mim. Depois recolheu os pães e se mandou em seu passo lento.

Que noivo que nada. Eu também não me importo. Vou agora jogar com meu irmão e dessa vez não vou deixá-lo ganhar. Hoje eu vou massacrá-lo, depois quem sabe consigo fazer ele comer terra.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quando o Mundo Chama

Camille corria desesperada pelas ruas de Paris. Não sabia como havia parado lá, simplesmente corria com o pavor a perseguindo. Era noite e as ruas estavam cheias de parisienses e turistas. Ela passava por todos e sentia que não a percebiam. Corria gritando, com lágrimas nos olhos, a boca crispada.

De repente parou no meio de uma praça e gritou. Todos ali convergiram seus olhares imediatamente para ela, com exceção dos outros que obviamente estavam a observando desde que ela apareceu em seus campos de visão. Seu corpo despencou no chão sem sinal de vida. O que quer que a estivesse perseguindo conseguiu alcançá-la.


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Em algum lugar da Espanha, em algum quarto, dois corpos formavam um símbolo. Cada um virado em uma direção, deitados na cama, a perna de um apoiada nas costas do outro, cabeças distantes, lençóis emaranhados em seus corpos cansados. Eles respiravam calma e profundamente. Os seios se moviam ritmicamente.

- E agora? Ainda acredita ter certezas?
- Mais do que nunca. Cada vez mais tenho certezas mais certas.
- Isso não existe! Não existem certezas, e sim ilusões.
- Cale a boca e não questione minhas certezas. Você faz parte delas.
- Piegas.
- O mundo é piegas. E você é tonta.

O mundo passava em um conto de fadas, nada parecia real. Tudo parecia ser fantasia e sonhos. Tudo era desejos e realizações. Tudo parecia ser eterno.
Parecia ser eterno também a angústia grudada no peito, a lágrima que estava prestes a existir no canto do olho amargurado e trêmulo. O pensamento ficou preso entre alguns neurônios e não se concretizou em ação pelos músculos. O pensamento de olhar o relógio ficou parado no tempo, junto com a lágrima a existir. No momento em que apenas um daqueles olhos encontrasse o relógio, não seria necessário nem mesmo a compreensão daqueles símbolos impiedosos, o feitiço estaria quebrado. Nada mais seria eterno; nada mais teria gosto. O mundo apareceria para cobrar os juros das horas passadas.
Os olhos estavam paralisados na cortina com medo do que veriam, ou do que não entenderiam. Mas enfim eles chegaram ao seu malfadado destino. E fosse aquilo 9:05 ou 5:06, da manhã ou da noite, ou se ali não existia mesmo um relógio, tudo em seguida caiu. O quarto se tornou escuro e úmido, com uma luz fria e azulada. Os sons se desfizeram em um silêncio macabro. Os corpos se tornaram frios; tão frios que queimavam a pele e tornavam impossível continuarem se tocando. Enrugados e velhos, o mundo caiu sobre eles.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ele Estava Louco

Ele estava louco. Partiu para cima de mim com o cano do escapamento na mão e uma expressão insana no rosto. Aparentemente o acidente de carro não foi o suficiente para ele. Depois de ter lançado seu carro contra o meu ainda queria me arrancar a cabeça a golpes de cano. Não pude fazer nada a não ser dar cinco tiros em seu rosto e pescoço, fazendo assim com que ele diminuísse sua velocidade e enfim caísse no chão. Mesmo morto ainda me inspirava certo medo, o cano de escapamento ainda estava bem seguro e não duvidaria se por um instante ele se levantasse e o arremessasse contra minha cabeça. Mas percebi que enfim estava livre dele e pude descansar jogando-me no chão exausto. Em poucos minutos a polícia estaria aqui e tudo acabaria. Eu mesmo fiz a ligação. Chamei-os quando percebi estar sendo perseguido por ele. Nesse momento eu tive um verdadeiro pavor e medo de perder a vida pois tinha acabado de ver do que ele era capaz. O que ele fizera há pouco foi brutal, me marcou para a vida. Agora imagine que depois de ver aquilo eu o surpreendo me seguindo. Uma descarga de adrenalina veio correndo pelas veias e me inundou em um pavor nunca antes sentido por mim. Na verdade eu acho que nunca tinha sentido pavor de algo antes. Sempre fui muito seguro de mim mesmo e sei que poderia escapar de qualquer situação perigosa. Mas isso mudou quando o vi naquela noite. Logo que ele entrou no quarto eu já senti algo estranho, mas não sabia ainda o que era. Eram seus olhos. Ele estava a mais de dez metros de mim e eu sentia como se ele estivesse a apenas dois passos, me encarando. Minha reação imediata foi a de afastar o rosto por medo de tal proximidade, mas logo percebi que na verdade ele estava muito longe, e isso aconteceu quando ele tirou os olhos de mim e colocou-os nela. Percebi que nesse exato momento ela teve a mesma reação que eu, apenas mais discreta, provavelmente por estar um pouco acostumada com ele, sendo sua irmã. Mas foi então que tudo aconteceu. Ele partiu para cima dela como um raio e a agarrou pelo pescoço com uma única mão, uma mão imensa que esmagava aquele pescoço frágil. E logo como se já não fosse o suficiente ter a asfixiado quase até a morte, começou a bater violentamente sua cabeça na parede enquanto declinava seus versos improvisados:

Ba-ta-ti-nha-quan-do-nas-ce
Você é minha
Sempre minha
Meu amor por você
É inigualável
E deverá me amar
Como a seu deus
Para toda a eternidade

Vendo aquela cena incrivelmente estúpida e surreal, eu saí correndo pela porta com o primeiro indício do pavor que sentiria apenas mais duas vezes até o final de minha vida. O medo de sua velocidade sobrenatural. Parece estranho mas sua influência sobre mim foi tal que eu realmente achava que não importava o quanto eu corresse, ele iria me alcançar numa piscadela. Então entrei no carro ainda com aquele meu primeiro pavor, o primeiro de minha vida, e acelerei o mais rápido que pude, soltando um suspiro entrecortado pela tremedeira de meus lábios enquanto não o via saindo pela porta da casa. Finalmente estava livre daquela sensação, ele ficara no quarto com o corpo sem vida. Mas como eu disse antes, ainda teriam mais dois momentos em que eu sentiria aquele pavor horrível, e o segundo momento começou exatamente ali. Vi no espelho retrovisor um carro dirigindo alucinadamente, com os faróis acesos na escuridão, ziguezagueando por entre os outros carros e terminando seu caminho justamente na minha traseira, um choque violento que deslocou meu carro direto de encontro a um poste. Saindo do carro, milagrosamente vivo, olhei em direção de seu carro que estava a poucos metros de onde eu estava, o carro estava com a frente totalmente esmagada, mas ele já havia saído e dado à volta no resto do veículo, encontrando-se logo a minha frente, a alguns metros, mas novamente como se estivesse a apenas alguns passos. E de alguma forma ele havia conseguido arrancar o cano de escapamento de seu carro e agora o empunhava fumegante na mão canhota, erguido acima de sua cabeça. Instintivamente eu afastei meu rosto aterrorizado e neste exato momento eu senti aquele pavor ensandecido, do qual já falei antes, pela terceira e última vez, mas a tempo lembrei-me de que eu era na verdade um militar, e que estava ainda com meu uniforme, tendo saído a pouco do serviço e passado para visitá-la, e então saquei minha arma do coldre e atirei-lhe cinco tiros no rosto e pescoço bem a tempo de interromper sua corrida em minha direção. Ele lentamente parou e caiu no chão, ainda segurando o cano fumegante nas mãos, talvez o calor tivesse grudado o metal à sua pele. Descansei então quando lembrei-me de que havia chamado a polícia a poucos minutos e de que logo estariam ali para recolhê-lo. Mas quando percebo que fiquei por alguns muitos ou poucos minutos preso em meus pensamentos, relembrando todo o acontecido, vejo-o em pé às minhas costas, contrariando toda a minha lógica desenvolvida até agora, com o cano fundido ainda na mão canhota erguida, e nem sinal de sirenes, algazarra, populares curiosos. Vi apenas seus olhos pontiagudos em chamas, rodeados de balas, e mais uma vez, pela quarta vez, senti o pavor me tomando e gritei, me sentindo liberado, antes apenas do golpe certeiro e fatal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Nudez Apenas

"Só nos resta a nudez".

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Que Venha a Solidão Como Deve Ser

- O que foi aquilo?
- Nada, não sei. Não aconteceu nada!
- Você simplesmente me deu as costas no meio da rua!
- Eu já disse que não sei o que aconteceu!
- Mas não é possível. Como pode isso?
- Quer saber mesmo? Eu te digo o que aconteceu. Não agüento sua cara de bosta. Você me sufoca. Sempre a minha volta, me rodeando, falando, perguntando, egoísta em todos os seus comentários. Me deixe em paz!
- Mas de onde veio isso? A quanto tempo você pensa tudo isso?
- Desde sempre, nunca te aturei de verdade.
- Então por quê não disse nada antes? Por quê nunca me falou como estava se sentindo?
- Eu estou doente. Não me pergunte o que tenho porque não importa. Mas vou morrer logo.
- Como...? E não me diss...
- Não! Não disse. Não quis dizer. Me deixe em paz. Me deixe morrer sozinha.
- Eu entendi. Entendo que isso é muito difícil para você lidar e por isso age assim, me afastando. Mas eu estou aqui para te ajudar. Não vou te deixar.
- Vai embora! Não te quero por perto. Não me entende? Vai embora! Some! Eu te odeio! Quer ouvir de novo? Eu realmente te odeio!
- Entendo. Eu vou estar por perto, basta me ligar que eu venho logo.
- Não!! Me deixa em paz! Vai embora logo e não volta nunca mais! Nunca mais!

Talvez ela estivesse mesmo reagindo mal à doença. Talvez estivesse perdendo a razão ou simplesmente a calma por saber tão repentinamente que ia morrer. E tão jovem. Mas talvez ela realmente não gostasse dele. Talvez mesmo o odiasse. Então por quê estaria com ele por todo esse tempo? Medo de solidão. É muito comum nos tempos modernos onde o toque está cada vez mais escasso. Ela tinha pavor de ficar sozinha e por isso aturava qualquer um desde que tivesse sua companhia. Ela sempre foi impulsiva, obsessiva. Era apenas questão de tempo até que isso afetasse sua vida de tal forma. Suprimiu por tanto tempo o ódio que tinha dele que quando descobriu sobre a doença não agüentou e o escorraçou. Não agüentaria ficar junto dele nem mais um minuto. Por isso o ato tão violento.
Ao menos ele reagiu de uma forma contida. Pior seria que fosse impulsivo e violento também. Não teria terminado bem.

Ela agora aliviada de certa forma pela presença repudiável ter ido embora deixou-se cair no chão e chora. Chora franzindo todo o rosto, apertando os olhos sofridos, esgarçando a boca fina. As lágrimas caindo sobre seu colo. Chora tanto por estar morrendo quanto por estar sozinha. Reconsidera chamá-lo de volta apenas para que tenha alguém por perto. Sabe que é loucura, mas não consegue evitar de pensar nisso. É um vício.

Tivesse amigos e podia ligar para eles, chamá-los, pedir que ficassem com ela, que não a abandonassem. Mas não os tinha. Nunca teve. Conseguia apenas manter uma pessoa de cada vez. Tinha medo de perder a companhia se procurasse por outras. Como se esvanesce-se apenas por olhar para outra pessoa.

Ela era extremamente ciumenta, por isso achava natural que todos fossem iguais. E ela sabia que provocar o ciúmes de outro era algo imperdoável. Por isso nunca olhava para os outros, mesmo quando estava sozinha - nas poucas vezes em que isso ocorria.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vingança

Tocou a campainha. Atendeu-a um homem gordo de uns cinqüenta anos que, reconhecendo o visitante se preparava para pergunta “que...”, quando o garoto se virou de costas, pegou um revolver do bolso e atirou dentro da própria boca fazendo a bala sair pelo topo da cabeça e espirrando sangue na cara do velho, que estava estático, com olhos e boca bem abertos.


Havia pensado, “se eles pretendem me prender, vou fazer isso antes, foi o que prometi”. Estava sempre com aquilo na sua cabeça; prometeu e cumpriria. Queria que o tio sofresse, assim como ele sofreu, vendo sua mãe tendo que fazer todo tipo de trabalho sujo e podre, se humilhando para sustentar a família. Vendo o seu pai pelos cantos da casa com a vida a se dissolver. E o bosta do tio fazendo de tudo para não ajudar. Fingia desconhecer os fatos. Quando alguém comentava, ele fugia do assunto, se escondia para depois alegar que não sabia.

O tio era rico. Tomou a empresa do irmão, se aproveitando que este tinha problemas com a jogatina, vendeu-a e fez dinheiro. O irmão logo se jogou de um prédio turístico no centro da cidade. Ele foi ao enterro e fez um belo discurso para o amado irmão.


Quando seu pai finalmente morreu, a mãe pediu abrigo ao tio já que sua casa havia sido tomada pelos credores. A casa do tio era grande para todos, mas ele alegou que estava fazendo uma grande reforma e que assim não poderia ajudá-los.


Quando sua mãe morreu, foi morar na casa do tio, decidido assim pelo juiz por ser o parente mais próximo e capaz de criá-lo. Na casa não dava descanso ao garoto. Não o deixava sair nunca e enchia-o de tarefas.


Quando finalmente completou dezoito anos, saiu daquela casa, para gozo do tio que sonhara com aquilo por dois anos. Envolveu-se em protestos políticos sempre tomando partido dos mais pobres, até começar a ser procurado pela polícia por acusação de agitador e perturbador da ordem pública. Quando descobriu que estavam mesmo atrás dele, sabe-se lá com que outros vis intuitos, pensou “se eles pretendem me prender, vou fazer isso antes, foi o que prometi”.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O Jantar

Eram quatro. Sentados ao redor da mesa, curvados por cima
dos pratos, a raspá-los com as colheres. Metal contra
porcelana. Não falavam nada, apenas engoliam. Curvados sobre
o vapor dos pratos. O vapor a acariciar-lhes a face, a
amornar-lhes a pele. O odor de repolho invadindo as narinas.
E as colheres a raspar, e a soar. E os lábios a sorver, as
linguas a lamber. A sopa rola garganta abaixo amornando os
tecidos. As colheres gritam, os lábios se apertam e os olhos
boiam na sopa, sem destino.

A Prostituta

Se ele tivesse dinheiro a compraria. Pagaria por todo o
seu tempo para que ninguém mais lhe pusesse as mãos. Nenhum
daqueles operários sujos se aproximaria mais dela. Mas ele
não tinha dinheiro, o único dinheiro que tinha era suficiente
para apenas alguns minutos todo mês. Mesmo assim achava que
pelo menos por alguns minutos poderia livrá-la daquela vida
viciosa. Aliviá-la daquele ar nauseabundo.

Um mês havia se passado e ele continuava trocando seu pouco
dinheiro por aqueles poucos minutos mensais.
Ele já estava esperando no quarto de sempre quando ela
entrou sorridente segurando duas gramas de um chocolate
aguado que comprara com todo seu dinheiro infeliz. Virou-se
para apoiá-los sobre a cadeira onde geralmente os homens
apoiam suas roupas e ele levantou-se apressado agarrando seu
frágil pulso. Ela virou-se e deu com seus olhos loucos e as
palavras "vamos! agora!". Franziu as sombrancelhas
perguntando "o quê?" em seu idioma natal, e ele, como se
tivesse entendido, disse "quero agora!". Imediatamente ela
entendeu o que dissera, mesmo sem entender as palavras, e,
antes fosse outro homem qualquer ela teria acedido,
mas, tomada pela surpresa, não conseguiu pensar - ou pensou
demais - pois soltou-se da forte garra e correu em desespero
para a porta. Ele alcançou-a enrodilhando-a por trás com um
braço e tapando sua boca com o outro.

"Não foge" ela sentiu o peso daquelas palavras em seu
pescoço e não podia lutar; porque havia morrido. Naquele
momento havia sido demolido o canto de felicidade de sua
vida. O lugar em que ela todos os dias ansiava chegar; onde
ela esquecia do passado; que a fazia pensar no futuro. Em um
instante tudo aquilo foi destruído. Ela talvez o amasse, ou
talvez amasse tudo aquilo que ele a prometia.

Morta; mas apenas por fora porque por dentro ainda estava
viva; viva e lutando. Batia nas grades, chutava os portões,
gritava, mas suas ações não passavam pela pele. E de dentro
não sentia o que vinha de fora, não sentia as mãos, não
sentia os lábios, violando o seu sexo violado. Seus olhos
não fixavam nada, pairavam no vazio. De dentro não percebeu
a porta batendo apressada; não percebeu quando alguém a
estapeou, nem percebeu quando a deixaram em um beco, com os
raios insensíveis do sol cobrindo-lhe o rosto. Até perceber
que de nada adiantava lutar, e apagar-se, morrendo também por
dentro.

sábado, 22 de março de 2008

Deus

Deus, salva-me porque não te creio.

terça-feira, 18 de março de 2008

Crianças Não Têm Problemas

Chegara as férias. Nos apartamentos acima todos ouviam os gritos das crianças que corriam e se perseguiam no pátio. Ah, como é bom ser criança. Não ter problemas na cabeça.

As crianças, aos punhados, passavam a toda hora umas atrás das outras. Jorge apenas olhava; olhava o céu. Sentado na mureta de dez centímetros observava o céu. Gostava de olhar o céu, as nuvens e suas variações de cor e formato.

- Está bem? - pergunta uma garota.
- Sim.

Ela continua a correr. O punho fechado o acerta no rosto. Ele fecha os olhos para senti-lo melhor. Observa o céu, mas agora com as pálpebras apenas, porque por trás das pálpebras ele observa o soco. O soco que acerta a face de sua mãe, e a risca de sangue que escorre de sua face. Papai está bravo. Está com o orgulho ferido e precisa de seu remédio. Por isso
ele chega em casa e acerta em mamãe. Agora está melhor. Sentado no sofá, ele sente que tem o poder de volta. Sente-se mais homem do que antes.

É a quinta vez neste mês. Mas ele toma o remédio e melhora. Espero que ele não tenha mais frustrações na vida, para não ter que tomar o remédio outra vez. Papai sente-se mal. Sente-se preso a esta vida, a esta família. Sente-se frustrado por não ter conseguido realizar nenhum de seus sonhos. Mas papai tem seu remédio. E tudo está bem agora.

Lá está o céu.
Com seu vermelho vivo, suas nuvens escuras e uma grande cicatriz que se põem no horizonte. Uma cicatriz que verte luz e céu. Uma cicatriz que verte e pinta o céu de vermelho. Uma cicatriz que se põe e torna a retornar no outro dia.

Perfeição

Estava triste. Estava sozinho. Tinha perdido a família inteira em um acidente de trânsito. Pais, tios, avós, primos. Não era uma família muito grande, mas coincidentemente estavam todos no mesmo ônibus, indo para o litoral passar o fim de ano. Bastou um carro passar-lhe à frente para o ônibus capotar, foi o que lhe disse o guarda rodoviário. Com certeza seria um choque para uma pessoa ordinária, mas ele era forte. Ao menos era o que ele achava. A primeira noite depois do acidente foi insone. Apenas na segunda conseguiu dormir um pouco. E sonhou.

Estava escuro, não se via nada. Sentia apenas uma brisa suave, mas não conseguia distinguir de onde vinha. Foi então que ouviu uma voz, rouca e irônica.

- Sente-se bem?
- Quem é?
- Não te interessa!
- Não seja covarde! Apresente-se. - Disse insolente como sempre.
- Está bem. Muitos me chamam de “deus com Letra Maiúscula”. Mas você pode me chamar como quiser, invente uma palavra.

- Deus não existe! Isso é óbvio.
- Hm. Eu já tive várias crises existenciais. Tantas pessoas dizendo que eu não existia. Outras contradizendo com tanta fé que sim, eu existia. Mas sabe de uma coisa? Eu acho que eu existo. E se não existir, não tem problema. Eu finjo existir e é o suficiente. A questão é que eu sei o que aconteceu com você, ou o que NÃO aconteceu. Sei muito bem, se é que me entende.
- Mas se você é deus, então você é o culpado por isso.
- Está certo.
- E porque fez isso? O fato de eu não acreditar em você o irrita?
- Bem, acho que você já foi convertido. Afinal está falando comigo.
- Isso não vem ao caso! Diga porque fez isso!
- Porque costumo ficar entediado sozinho, então faço uns acidentes para me animar.
- Entediado?! Mas você não é perfeito? Como poderia ficar entediado?
- Já se olhou no espelho?
- Que quer dizer com isso?
- Quero dizer que se você reparar em si mesmo verá que é imperfeito. E se você é imperfeito, eu que te criei também sou. Se eu fosse perfeito não erraria nas minhas criações. Uns dizem que eu estou testando vocês, por isso os fiz imperfeitos. Mas eu não acredito nisso. Devem estar mentindo para me animar.
- Mas se é imperfeito por quê tem o poder que tem? Não te parece errado?
- Sim, mas na Terra existem muitas pessoas que têm muito poder e mesmo assim são tão imperfeitas quanto eu. Na verdade mais. Você agora parece uma pessoa razoável. Garanto que já pensou que se tivesse tal poder não usaria em proveito próprio, ou faria algo para ajudar os que não têm tal poder. Não é verdade? Mas a real verdade é que todos são corruptíveis, e muitos dos que hoje têm grande poder já pensaram assim como você. Mas depois de um tempo, quando você percebe a enormidade do poder que tem em mãos, é muito difícil pensar nos outros. Um dia você está mais fraco, mais cansado e não tem paciência para lutar contra os desejos. Eu sei bem o que estou falando, sofro disso. É como um vício, você diz que na próxima vez que for tentado não cederá, mas todos sabem que na hora não é tão fácil. O prazer vence tudo, qualquer força de vontade, eles apenas preferem acreditar que podem resistir. Essa é a maior vantagem de ser quem eu sou. Eu posso assistir tudo "daqui de cima", como dizem alguns. Sei de todas as mentiras que contam, sei de todos que têm medo, sei quais são os defeitos de todos.
- E onde você está? Onde estamos agora?
- Em todo lugar, no seu sonho, espalhados pelo universo. Você nunca poderia ir onde eu estou, nem se tivesse poder para tal. Porque não sou físico, nem estou em um lugar físico. É como a tal da realidade paralela ou universo paralelo. Estou em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Imagino que não entenda.
- Acho que entendo sim.
- Acha mesmo?
- Acho! Mas isso não faz diferença. Você mudou o assunto completamente. Por quê derrubou aquele ônibus? Não têm piedade? Não têm sentimentos que te doam quando percebe a infelicidade dos que ficaram, dos que sentirão saudades eternas?
- Sentimentos eu tenho, mas como eu já disse tenho também muito poder. De vez em quando eu posso fazer algo bom ou útil para alguém, mas a maioria das vezes eu apenas vou fazer o que me divertir, o que me der vontade. Isso é muito normal na minha opinião, muito humano. Não vê como as pessoas são? Não vê que as pessoas se importam mais com acidentes e catástrofes do que com boas ações. Quantas pessoas param quando vêem alguém dar dinheiro para uma mulher esfomeada com dois filhos pequenos, ou qualquer coisa do gênero? Agora me diga quantas pessoas param para ver quando um acidente de carro sério acontece. Quando há possibilidades de mortes e ferimentos sérios. Se uma batida acontecer, todos olharão. Tudo bem, é a curiosidade e o reflexo que estão agindo, mas repare que se for uma batida sem importância onde no máximo um pára-choque se amassa, todos continuarão seu caminho. Agora, se a batida for grave e eles perceberem que provavelmente existem feridos, eles querem olhar, querem saber. Você pode me dizer que é a curiosidade novamente, mas afinal a curiosidade não dá um certo prazer? Não te dá prazer “matar a curiosidade”? Se eles não obtivessem prazer com a curiosidade não ficariam lá, observando o metal torcido, as pessoas gritando das janelas de um prédio em chamas, etc.
- Então admite que a Terra é apenas o seu joguinho particular, que nós humanos somos apenas peças de um tabuleiro que você manuseia como quer? Admite isso, mesmo sabendo que todas essas peças têm sentimentos, que sofrem? Você não pode dizer que não sabia que podíamos sofrer, como uma criança quando atira uma pedra em um pássaro, ou quando pisa em um inseto. Não pode dizer isso. Você é pior que uma criança!
- Sim, eu admito. Mas é assim que as coisas são. Vocês estão em meu tabuleiro e eu estou jogando com vocês, como qualquer humano que caça um animal por diversão, que mata insetos para colecioná-los. Se eu fosse um humano você não poderia me condenar por estar agindo assim. Você está se esquecendo que eu também sou imperfeito, não posso simplesmente ignorar meus anseios, meus desejos. Às vezes desejo me divertir, e se apenas me divirto com o sofrimento de vocês então não há outra escolha, prefiro me divertir custe o que custar a sofrer por não poder me divertir. Também sou egoísta. E não me diga que eu sou pior que uma criança, pois quem não é pior que uma criança? Todos são melhores e piores que uma criança. As crianças mesmo são, ao mesmo tempo, abençoadas e amaldiçoadas com sua pureza. Por causa de sua pureza as crianças não violentam outras crianças, não roubam dinheiro de outras pessoas, não se incomodam de estarem com as roupas sujas. Mas apenas por quê isso não as interessa. Elas não têm o desejo sexual para suprir, o dinheiro não as serve de nada e não importa a roupa que usem porque não importa mesmo se estão usando roupas ou não. Mas quando é algo que as interessa, elas agirão tal como os adultos. Elas roubarão, mentirão e machucarão. Não importa quem esteja no caminho. Você pode pensar que se os humanos tivessem a sabedoria da terceira idade e a inocência e pureza das crianças o seu mundo seria melhor, mas isso não é verdade. Porque eles ainda teriam os desejos, eles ainda teriam os tais sentimentos, eles ainda seriam imperfeitos! O mundo nunca será um lugar perfeito porque não existe perfeição! E o mundo nunca será um bom lugar porque ninguém consegue vencer os próprios sentimentos! Não está me vendo agora?
-... Você espera ser desculpado simplesmente porque alega ser imperfeito?
- Não é assim que vocês agem? Não cometem seus erros deploráveis e depois dizem que são humanos, que são imperfeitos e que por isso devem ser perdoados? São todos hipócritas! Querem que os criminosos sejam presos sem compaixão, mas quando os criminosos são vocês esperam e choram por misericórdia. Tenho tanto direito de usar minha imperfeição como desculpa de meus erros como vocês. Já pensou que desde tempos remotos até os tempos atuais nada mudou? A Terra é tão imperfeita e ruim quanto sempre foi. E eu não posso fazer nada. Talvez pudesse se fosse perfeito, mas se fosse perfeito não precisaria fazer isso. Pois agora sabe também que não sou onipotente, não tenho o poder para fazer qualquer coisa, porque não tenho poder para fazer isso. No final tenho quase tanto poder de mudar o mundo quanto você. E isso não me agrada... Acho que não foi uma boa idéia falar com você; só me aborreci. E isso não é bom para vocês.
- Espere! Por favor, não me deixe acordar. Não tenho vontade nenhuma de continuar vivendo depois de saber tudo isso. E aproveitando que estou aqui, eu poderia muito bem continuar aqui.
- Não posso fazer isso.
- O quê?!
- Tenho curiosidade, de saber como vai encarar a vida de agora em diante. - sorri.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Bored tonight

"Hi, I am pretty russian girl. Bored tonight."

domingo, 6 de janeiro de 2008

O sonho é...

O sonho é a bebida do abstêmio.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Vida

Ela entrou na casa; em cada canto, em cada cadeira, em cada sofá jaziam os corpos trêmulos, espasmódicos, suspirosos. Estavam todos drogados, extasiados de vida; tinham vida a sair pelas narinas. E ela continuou andando através desses seres com repugnância e horror na face. Via os rostos contorcidos, as pálpebras tremulantes. Em um desses rostos encontrou Álvaro. Estava igual a todos os outros; suspirava. Quando percebeu os movimentos próximos, abriu os olhos e a reconheceu. "É soberbo", disse com voz sumida. Uma lágrima escorre pelo rosto dela, "eu sei", "já se passaram quantas horas?", "dezessete. Já é o suficiente?", ele diz que sim com a cabeça; Ela afasta-se.

Logo ele começa a acordar do torpor. Mexe-se lentamente, como uma preguiça. Apóia-se na cadeira, senta mais ao fundo, curva o tronco para a frente segurando a cabeça com as mãos. Os lábios contraem-se, as bochechas caem; ele sente o gosto amargo na boca. Ela volta, "vamos?", "sim", responde ele levantando-se da cadeira lentamente. Ela vai à frente martelando os tacos soltos com os saltos altos e ele, logo atrás, os varre arrastando as sandálias.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ignorância

Não sou inteligente o bastante para lutar contra a ignorância deles.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Introspecção

A água estava escura e imóvel, mas quente. Ela cabisbaixa pensa. E vê algo. Um dedo saindo esticado da água. Depois uma mão, um braço, uma cabeça.
“Então, nesse mesmo dia, à muito tempo atrás, você nasceu?”. Mexe a cabeça. No pequeno movimento a ponta dos cabelos encosta na água, se afasta encharcada. Uma gota cai da ponta dos cabelos até a água levemente ondulante. Morde o lábio inferior. “Muito tempo. Está desgastada, enrugada”. Aperta mais forte. Apóia-se na ponta dos pés na borda da banheira e a encara. “Sei como é isso. Mas sou apenas uma sombra”.

“Vou te contar uma história. Um dia ela morreu. Fim”. Um dia... “E a sombra se desvaneceu. Todo dia você é um rascunho. Mas no último dia você é um trabalho pronto. As pessoas vão olhar, admirar, criticar, e esquecer”.

Uma outra gota cai na água e a onda produzida arrasta a escuridão. Vê seus joelhos. Odeia seus joelhos. “Até outro momento”. A luz se acende e o reflexo na água ofusca seus olhos. Ela sai da banheira, coloca um casaco pesado por cima da pele e sai para as ruas vazias. Pára na frente de um prédio, olha para uma janela e espera uma coisa. Não há luz. Dormem. Ela nunca chora, mas agora desejaria poder.

Mais uma noite de vigília. Sentimentos desesperados. Nostalgia cruel. Anos passados. Vida desperdiçada.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A Boa Morte

O menino saiu para o bosque próximo de sua casa pensando em provar a todos que ele realmente não era um menino mimado. Logo foi encontrado por um urso marrom que fuçava nos arbustros e pensou "essa é a perfeita chance de provar que todos estão errados quanto a mim". Partiu para cima do urso gritanto e fazendo ruídos ininteligíveis, o que parece ter realmente incomodado o urso, que se ergueu nas patas traseiras e desfechou-lhe um tapa no rosto arrancando parte da bochecha do garoto que embriagado em adrenalina e estupidez investiu novamente contra o urso. O animal apenas o derrubou com um tapa leve, fazendo-o cair às suas patas. Não demorou para cavoucar o abdômen do garoto e jogar suas tripas longe. O garoto, ainda sem dor, pois além da adrenalina estava já cheio da morte, começou a tremer os lábios enquanto olhava através do céu. O urso, vendo o ser idiota imóvel foi pacificamente embora sem se importar com o apêndice do garoto que estava enfiado em uma de suas garras.

O garoto, olhando para o próprio corpo, viu centenas de formigas agitadas que andavam por sua extensão. Não sabia mas estava sendo mordido inúmeras vezes, pois sua carcaça em breve inútil havia caído sobre um formigueiro. Observando as formigas pensou que elas, com seus instintos, vieram para felicitar o mais novo bravo homem. E pensou ainda "sou um bravo homem; sou um homem corajoso; não mais um menino mimado". E então apagou, pois a morte havia transbordado em seu corpo.

domingo, 4 de novembro de 2007

Nove e cinquenta e oito. O povo se aglomera na frente das portas do banco. Bancários e pagantes se acotovelam para decidir quem ficará com o rosto contra o vidro da porta (ou contra as portas de vidro). Ninguém entra antes das dez horas, é a regra. Dez horas, os sinos da igreja da rua de baixo soam. O povo aumenta o volume, ensurdecedora celeuma. Um homem caminha em direção à porta sobre o piso de cerâmica. Abre a porta, mas se esquece de tirar-se do caminho e é atropelado pela turba ensandecida. Todos correm, bancários na frente, povo atrás. Todos buscam seus postos. Quando todos os bancários estão de posse de seus assentos não resta ao povo senão suspirar. Suspirar e entrar na fila. E então a briga é para saber as posições na fila. O primeiro está sempre contundido de alguma forma. Então, depois que os paramédicos retiram os corpos invalidados a sineta soa pela primeira vez no dia. O primeiro da fila corre com seus hematomas para o caixa que chamou e fala com tanta rapidez quanto é possível entender. O caixa com seu olhar de enfado trabalha rápido mas sem se exaltar. Seus dedos movem-se tão depressa quando formigas em retirada. De repente escorrega da cadeira e se contorce no chão.

O médico corre, examina e proclama: "Uma severa LER. Repouso absoluto da mão por três meses." Tão rápido o médico terminou a proclamação o tal primeiro da fila pulou por sobre o balcão e assumiu o posto. Tocou a sineta.

Três e cinquenta e oito. Todos os banqueiros estão prontos e à espera. Olhos atentos à pequena porta ao fundo. Quatro horas anunciadas pelo sino sonante da igreja. A portinha se abre, sai o homem encaminhando-se confiante e sempre olhando para o horizonte. Abre a porta e lembra-se de colar-se à parede lateral. Os bancários lançam-se das cadeiras, saltam os balcões e correm para não ficarem presos no banco. Agora é só voltar para casa e dizer aos filhos "Eu fui o primeiro a entrar no banco hoje". Mal sabem eles.

domingo, 28 de outubro de 2007

Crianças são E.Ts.

- Você dizia...?
- Crianças. Eu tenho pavor de crianças, doutor.
- Crianças, ein?... (Alô. Sim, eu tenho um aqui. Podem vir
buscar) Diga: Elas gostam de ir ao parque?
- Ah, doutor. Eu imagino que sim. Ou melhor, acho que não.
Elas devem fazer coisas piores que ir ao parque.
- Mm. Diga, descreva o cabelo delas.
- Ah, doutor. São cabelos normais, de diversas crianças.
Tinha uma que tinha aquele cabelo tigelinha. Horrível,
doutor. Outra tinha cabelo comprido... E franja. Apavorante,
doutor. E elas olhavam para mim com uns olhos negros,
malvados, rindo na minha cara. Ainda me lembro daquela com
cabelo um pouco comprido que tinha separado no topo da cabeça
dois maços de cabelos pendurados. Pareciam duas maçanetas.
Uma vez sonhei com ela, doutor. Ela vinha na minha direção
rindo alto, com a faca na mão e as duas maçanetas
chaqualhando. Passei a noite em claro. Mas o pior foi aquele
moleque. Ele tinha o cabelo tão loiro, doutor, que às vezes
parecia verde. Verde! doutor. Nunca tinha visto cabelo verde,
doutor. Deve ser um E.T.. Sim, são todos E.Ts., o que mais?!
O que acontece doutor? Por que me atormentam?
- Pode entrar.
- É esse daí?
- É sim. Podem levar.
- Doutor! Não. Não deixa, doutor. Me ajuda, doutor. São as
crianças! São elas! Não permite, doutor! Por favor. Elas vão
acabar comigo! Eu não vou deixar. Não! Doutor! Doutor!
Doutor!

Meu Dente de Leite

Ficamos lá por algumas horas. Olhando a TV, sem falar nada, como mortos. E então quando eu fui embora eu me senti como sempre me sentia a maior parte da minha vida quando me distanciava de alguém que eu gostava, encarava meu próprio tédio e minha falta de personalidade. Quando cheguei em casa, recebi aquilo como um choque, mais forte do que nunca... A saudade. Mesmo sabendo o quanto eu gostava dela e o quanto ela apenas me tolerava. Coloquei o toca-CD no chão, deitei na cama e ouvi Tears in Heaven inúmeras vezes. Não chorei. Não choro há muitos anos. Apenas cultivei aquela dor incomensurável e desesperadora que aproximava minha cabeça da parede dura. Como um dente de leite pendendo da gengiva que eu cutuco, torço sentindo um prazer dolorido.

Expectativas

Ela chegou e começou a falar. Não demorou muito e as mudas começaram a crescer, por entre os fios de seus cabelos, no topo da cabeça. Ele colheu-as cuidadosamente e levou-as para o jardim. Depois de abertos os buracos na terra ele as plantou, regou e esperou. Dois dias, uma semana, três mêses, sete anos. Nunca brotavam. Nenhuma delas. Ele não se importava, mas os outros... se decepcionariam, muito. E ele continuava tentando. Mas nunca conseguia. Já tinha desistido a muito tempo.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Take the Risks

- I'm gonna say to you for the last time: You have the choise. A or B. You pick the right one she lives you die. You pick the wrong one you live she dies. Time's running.

- I can't do this. I don't know which one to choose. I don't wanna kill you but I don't wanna die either. I can't, I can't!
- C'mon, just pick one!
- No. I can't. I don't wanna kill you and live. I don't wanna live like this. It's fifty percent on each choise.
- You have to take the risks! Just pick one.
- I can't do it. I have too pick the easiest way. I'll choose neither.
- What?
- It's the best choise. Just one shot. It'll be painless.
- You don't know that. Don't be stupid! Pick one! Anyone!

- Time's up. What is your choise?

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Traição (o retorno)

Você está com sua companheira no sofá, noite fria, assistindo a um filme, com o braço ao redor de seus ombros e ela com a cabeça recostada em seu peito. Ela ergue o cotovelo um pouco e golpeia fortemente seus testículos.

Isso é traição. Você não sabe de onde vem.

domingo, 14 de outubro de 2007

The Old Times

the old lady, the old bed
the old face, the old hag
the old friends, the old life
the old people, the old time
the old problems, the old mind
"Nothing is like the old times",
would say your grandpa.
damn, he's right.

Organização

Vamos lá! Homens aqui e mulheres aqui. Mas esses homens são homossexuais, então ficam ali, e ali as mulheres homossexuais. Espera um pouco. Desses grupos eu tenho que separar os pretos, brancos, amarelos e vermelhos; e os de cores indefinidas. Homens brancos de barba pra cá, sem barba pra lá. Mulheres de barba pra lá, bigodes também. E agora? Homens de cabelo comprido aqui, e mulheres de cabelo curto aqui. Aqui os bebês, aqui as crianças, aqui os adolescentes, os adultos aqui e os velhos caquéticos ali. Crianças loiras ali, crianças ruivas aqui. Velhos carecas lá, velhos carecas de manchas na cabeça ali e velhos de cabelo grisalho pra cá. Aqui as mulheres de peruca, ali as de cabelos pintados... Pronto. Os de dentadura aqui e aqui. Neste aqui os cancerígenos pretos adolescentes fumantes. Os anêmicos brancos de peruca lá.

Isso é extremamente cansativo. Chega! Vão todos para um grupo só. Eu coloco uma etiqueta aqui e pronto: Lixo.

sábado, 22 de setembro de 2007

A Menina que Não Sabia Ler

Foi em São Paulo que ela nasceu e se criou, na década de oitenta. Família liberal. Mas ela não. Ela discordava dos costumes familiares. Das loucas festas semanais. Regadas a álcool e drogas. Que tipo de família é essa, ela pensava. Resolveu sair de casa quando fez vinte anos. Alugou um apartamento pequeno e achou que agora sim, sozinha ela poderia viver decentemente. Poderia se preocupar com seus interesses. Gostava muito de ler mas na casa de sua família era sempre tão barulhento que não conseguia se concentrar. Quando encontrou um trabalho de livreira em uma pequena livraria achou que finalmente tudo estava se encaminhando. Em seu novo trabalho, nos tempos de menor movimento da loja podia folhear vários livros a sua vontade. Chegava a ler diversos livros nessas folheadas, pouco a pouco. Mas ela gostava mesmo é de comprar os livros, de relê-los. Já tinha montado uma estante que ocupava toda uma parede de seu já pequeno apartamento.
Já tinha aumentado sua coleção em algumas centenas de livros, de assuntos diversos, todos lidos e relidos inúmeras vezes.

Ela tinha uma peculiaridade. Quando lia algum livro, ela tinha a capacidade de penetrar tão fundo na história, se distrair tão profundamente e através das palavras escritas criar as imagens com imensa facilidade. Mas ela não se contentava em transformar as palavras em imagens. Nos livros em que o autor não dava uma boa descrição dos locais, das personagens, de suas roupas, suas manias, seus defeitos, seus sotaques ela mesmo inventava. Atribuía quase que instantaneamente, assim que a personagem aparecia, todas as suas características, virtudes e defeitos. E a cada vez que relia o livro, ela recriava todos as personagens, todos os detalhes, toda a mobília dos cômodos, as fontes das praças, a cor dos pássaros nas árvores. A ponto de criar uma história paralela à do livro. Ela continuava a passar os olhos pelas palavras, a virar as páginas e a começar e terminar os capítulos. Mas as palavras que ela lia já não eram as que o autor escolheu. Ela substituía todas as palavras por suas próprias. Por onde passava os olhos as palavras iam se transformando, as letras iam se apagando e outras iam aparecendo no lugar. Assim, nunca lia a história inteira de um livro. E quando alguém comentava sobre um livro, ela dizia que sim, que lera, e passava a citar inúmeros trechos que ninguém reconhecia. Falava de personagens que não existiam e de histórias absurdas. Pouco tempo levou para que fosse considerada mentirosa. Ela continuava a citar e a afirmar piamente que não se enganara, mas ninguém mais acreditava. Está louca, diziam.

Foi em pouco tempo que acabou por se trancar em seu pequeno apartamento. Não saia para nada. Pediu demissão na livraria e arranjou um emprego escrevendo resenhas de livros para um jornal bairrista. Deixou alguns anúncios na internet para conseguir ganhar um pouco de dinheiro escrevendo redações para estudantes do segundo e terceiro ano. Comprava cada vez mais livros em lojas on-line e lia pelo menos um ao dia. Comia pouco, e nunca enquanto não terminasse um livro. Comprava somente sopas prontas para não perder tempo e comia uma por dia, logo após terminar o livro diário. Assim que terminava de comer passava para o próximo livro. Quando o dinheiro não dava nem para sopas, nem para livros ela relia os mais novos. E relia como se fosse um outro livro acabado de chegar. Uma nova história, novas personagens.

Até o dia em que comprou um determinado livro. Chamava-se “A menina que não sabia ler”. O livro falava sobre uma garota que saiu de casa cedo e passava a vida lendo livros.
Mas na verdade ela não os lia. Olhava apenas as letras e as palavras. Admirava-as sem saber o que significavam. Nunca tinha conseguido aprender a ler. Seus pais tentaram diversos colégios e professores particulares, mas ninguém conseguia ensiná-la a ler. E mesmo assim ela continuava a comprar livros diversos e a olhar letra por letra até o final. Sem nunca entender o que elas lhe diziam.
Ela se afeiçoou com a personagem. Sua história a fascinava. Não sabia porque. Ela sabia ler, mas por algum motivo aquela história parecia muito com ela. Passaram-se semanas e ela continuava a ler aquele livro. Não comprara mais nenhum outro livro, tampouco suas sopas, pois não tinha dinheiro. Não fazia mais os trabalhos usuais. Não checava os pedidos de redações dos alunos. Não enviava mais resenhas. Apenas lia. O mesmo livro. O infindável livro. Já oito semanas haviam se passado e, mesmo lendo compulsivamente, emendando vírgulas e pontos finais o livro não terminava. Estava cada vez mais obcecada pelo livro, pela sua história, pela personagem. E cada vez mais fraca. Estava na mesma posição de quando começou o livro. Deitada de bruços, apoiada nos cotovelos, com o rosto seguro pelas mãos; olhar atento, mordendo o lábio inferior. Não se movia; quase não respirava. As pálpebras pendendo, se fechando, tremulando. A expiração exalando e varrendo a poeira de cima da página número sete. Cílios contra a pele. Imóveis.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

The Ken' Show

- Hi. I'm Fred Savage from The Ken's Show. I'm here with this villager to know what he does for living. Hello, sir. What're name?
- Who the hell are you?
- I'm Fred Savage.
- And who the hell were you talking to?
- I was talking to my boss on the studio. He's on the north of the country. You're live on The Ken' Show!... From satellite.
- Satellite?! Are you a wizard?
- No, sir... I'm not a wizard. I'm talking to my boss through this little phone on my ear
- You are a wizard! You were talking to satan! Satan is your boss! Hey, fellows, he's a wizard. He's talking with the devil. I saw him. Let's burn him up!
- Wait a minute! You missunderstood!
= BURN! BURN! BURN!
- Hey, hey! Stop it! Get off me! Don't touch that! Boss!! Help me!
- Well, Fred. Seems like you're in trouble. Now let's get back to the studio and see the dancing monkeys.

O Caminho do Meio

Encontraram-se no meio da algazarra das festas religiosas e levaram-se um ao outro para uma rua escura, deserta, longe da multidão. Enquanto ia, ele pensava. Já se conheciam a quase dez anos. Ele sabia que ela sentia algo por ele. Seus amigos diziam sempre. Ela mudava-se perto dele. Corava. Tornava-se monossilábica e estava sempre sorrindo. Ele não. Nunca mudara. Estava sempre impassível. Sério mas terno; como agora. Intrigava-lhe aquela mudança repentina da garota. Bochechas vermelhas ardendo em fogo, como febre. Movimentos involuntários e desajeitados. Já tinha escutado algumas coisas sobre isso. Seus irmãos falavam sempre. Mas lhe parecia diferente. Não era igual ao que ouvira.

Quando entraram numa casa, viu através das sombras, num dos mortiços raios da lamparina a óleo da rua, o sorriso. Sentiu-se subitamente bem. Mesmo depois que a porta se fechou e o sorriso sumiu na escuridão. Mas não demonstrou o prazer em sua face. Um lençol cobrindo uma porção de palha era a cama, e logo se deformou sobre o peso dos dois. Entre os beijos que ela lhe dava suas mãos o despiam. E ele só se deixava despir. Deitada, ela já estava ofegante, respirando pesadamente em seu rosto. Mas ele apenas observava as sombras movendo-se. Sentia os braços agarrando-se ao seu redor. As pernas e o corpo inteiro se envolvendo nele. Sentia o calor do corpo como se fosse atravessado por ele. Os dois corpos pareciam se atrair. Cada vez mais juntos. Apertando-se mais. Fundindo-se. Então, como se se repelissem, uma dormência atingiu todo seu corpo mantendo-os separados. Ela rolou para o lado e se cobriu. Ele sentou-se e sentiu-se cansado. Lenvantou, vestiu as calças e saiu pela porta com passos mortiços e lentos, olhando através do chão, direto para o centro da Terra

Experimentar de tudo antes de seguir.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Surpreendo-me

Cuidei que estava sendo vigiado a vida toda.
Surpreendo-me que os olhos eram teus.

Amo sempre as que não se devem amar.
Sou amado sempre pelas que não posso amar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Mundos Pessoais

- Diga, Osório. Já contou sua teoria ao Palermino? – perguntou o inglês.
- Não é uma teoria, é apenas uma conjectura. E não, não contei.
- De que se trata? – questionou Palermino com sua curiosidade costumeira.
- Do mundo.
- Então conte, que já me cativou.
- Conto:

Certamente todos aqui conhecem tais doenças chamadas mentais como a paranóia, o estado catatônico e outras mais. A partir destas doenças raciocinei que o cérebro é onipotente dentro do mundo de cada um. E explico: como explicar o fato de que alguns gostam de uma cor e outros de outra cor; uns gostam de um sabor, outros não gostam; se não com a idéia de que cada um tem seu próprio mundo? Pois me parece que se tudo fosse claro, este é bom, aquele é ruim, não haveria gostos, não haveria preferências diversas. Imagine quem gostaria de comprar aquele sabão em pó que é ruim, que estraga as roupas. É óbvio que escolheria o bom, pelos benefícios. Assim digo que cada um vive no seu mundo pessoal. E digo ainda que este mundo é construído por nós mesmos, cada um o seu. Mas não penso que isso seja consciente, ou não existiriam tantos infernos. Assim como pouco a pouco o homem constrói a paranóia, pouco a pouco também o homem constrói seu mundo. Suas cores, suas pessoas, suas tragédias. Se quiser que o céu lhe seja vermelho, será vermelho. Se quiser que seja azul, será também. E quando lhe falarem do azul do céu, ouvirá que lhe falam do vermelho do céu. Assim como nos dizem que estão vendo algo e juramos que o que estamos vendo é outro algo que não aquele. Assim como vemos as pessoas como queremos; boas, más, educadas, inconvenientes.

Como num longo sonho o cérebro está trabalhando para criar o mundo. Assim como está trabalhando para nos refutar qualquer pensamento de que aquele mundo e irreal. “Não tinha esta pessoa morrido anos atrás? Mas estou a vendo. Estamos conversando e bebendo juntos. Posso tocá-la”. “Fulana diz que sou feio. Mas estou me vendo no espelho, os traços limpos e agradáveis, a simetria do todo. Sinto prazer em me ver”. Reforço que isso tudo deve ser inconsciente e que, portanto, o exemplo do céu não é aplicável, provavelmente porque crescemos ouvindo sobre o azul do céu. Mas quando algo que não conhecemos nos aparece, cada um julga como quer.

Enfim, isto é tudo que tenho até o momento, pois como sabem não sou psicanalista ou nada parecido para analisar o assunto mais profundamente.

- Magnífico! – disse o inglês terminando o café.
- Discordo! – retrucou Palermino - Não faz nenhum sentido - No que tornou o inglês:
- E o que me diz da Mariana, aquela graciosa garota que todos adoram?
- Não a suporto! Asseverou com as bochechas cheias.

Osório e o inglês gargalharam uníssonos entreolhando-se confidencialmente.

O Sacrifício da Traição

- Meus filhos me desprezam. Meus filhos me odeiam. Nem notam
a minha presença na sala.
- Vai chorar pra aquela vadia da sua amante!
- Não, Carmen. Com ela eu procuro apenas o prazer físico. O
que me faz continuar a viver. O que me impede de usar uma
faca para matar minha família. Você é quem eu amo. Mesmo
você estando neste pico de ódio, eu a amo. Eu compreendo que
você não entende que eu faço isso para o bem de todos.
- ... ela cai nessa conversa?
- ... cai. É bobinha...

Adeus!

Ouvindo Dial, pensando no que escrever. Sem internet, o desespero chegou. Chegou muito antes. O dia não fora bom. Energia cortada desde manhã, voltou à tarde, mas a internet não voltou. Logo veio a chuva e fez com que o computador se desligasse por duas vezes. A esperança de que o sinal voltasse antes da meia-noite, dois minutos que fosse, ainda perseverava. Olhava os leds. Aquele piscava. Não tinha que piscar. Tinha que ficar estático, mas ele teimava em piscar, de três em três segundos ele acendia e logo apagava. Ele precisava daquilo. Ele sentia que precisava usar um pouco a Internet antes de dormir, antes de se incubar para o dia seguinte. O dia em que tudo voltaria à rotina. Entraria na casa, depois de rondá-la sentaria em uma cadeira fria, pegaria um livro qualquer e leria. Leria automaticamente, segundos depois esquecendo todas as palavras e sentidos. Logo apareceria uma pessoa, andaria para lá, para cá, iria embora e ele nunca mais a veria.

Ele tinha medo de dormir. Não o desgostava o ato de dormir, mas isso apenas significava que estava acabado. Que quando acordasse estaria fadado a voltar àquela rotina, àquela casa, àquelas pessoas. Não queria isso. Esperava que alguém resolvesse isso. Comprasse a casa e dissesse “adeus!”. Neste dia a volta seria mais feliz. Andaria pela rua com um sorriso nos olhos. Olharia para o céu e mesmo este estando nublado e escuro lhe pareceria um belo céu. Melhor que de qualquer outro dia. Mas subitamente cairia uma parede em pé em sua frente, com uma porta dupla no lado esquerdo. E logo a seguiriam outras paredes. À esquerda, à direita, uma coluna atrás e atrás dela outra parede. E ‘bam’, ‘bam’, ‘bam’, cairiam umas atrás das outras. E por final cairia o telhado, mas antes do telhado cairia uma cadeira fria em sua frente. Uma cadeira com tiras de couro e fivelas nos pés frontais. Duas mulheres com as feições lavadas o pegariam bruscamente pelos braços e o sentariam na cadeira, afivelando as tiras de couro ao redor de suas pernas. Apertam-se as tiras. Outra mulher com as feições lavadas aparece dando tapinhas na parte de dentro de seu braço, enfiando uma seringa e indo embora. Todas se foram. Ele está sozinho, afivelado à cadeira. E começa a sentir seus olhos se liquefazendo, como se escorressem pelo rosto, lentamente. A visão turvando-se. Suas pernas se fundindo às pernas da cadeira. Sente-se todo se fundindo a cadeira, até serem um só. E o livro que antes lia, Dom Casmurro, está agora em cima da cadeira. Em cima dele. Posicionado casualmente em diagonal. A ponta do marca páginas aparecendo no topo. E uma mão o pegando. E duas nádegas jogando-se contra o assento da cadeira. Contra ele. Enormes. Crescendo. Assombrando. Sentam-se enfim, deformando o assento da cadeira. E sufocando-o. O ar não vem. Nada mais vem. Apenas o desespero. Este chega logo junto da escuridão.

Cai no chão e parece se alimentar do ar. Puxa o ar com as mãos direto para a boca. E a cada colherada segue uma tosse funda, longa e por final água cuspida. Muita água. Uma bacia de água. E então, se recuperando, tem tempo para olhar o local ao seu redor. Escuro, com paredes negras salpicadas de gotas cinzas. Não acha o teto, que sobe junto com as paredes até a escuridão. Pensa em gritar. E grita, grita um silêncio porque sua voz não veio. Ao invés disso sua mandíbula continua se abrindo. E abrindo. E ele não consegue parar. Até sua pele começar a rasgar-se e por fim sua mandíbula cair no chão. Um pedaço de escassa carne recheada com um osso, dentes saindo, uma língua torcida. Pode ver o cavanhaque no queixo sem dono. E vermes. Sim, vermes. Saem da carne. Entram de novo. Contorcem-se. Agora seu braço começa a ceder. Novamente a pele se rasga. Cai o braço. Mais vermes. Parecem se multiplicar. E a tampa se abre. Do teto passa a luz que o cega e logo uma enorme cabeça bloqueia o centro da luz. “Adeus!”, diz a cabeça em uma voz ecoante.
A tampa se fecha e a escuridão aparece. Logo, longas labaredas de fogo brotam do chão. Multiplicam-se. Escalam as paredes até o teto longínquo. Crescem debaixo de seus pés. Queimam a mandíbula abandonada. Fazendo a pele borbulhar e os vermes moverem-se com frenesi. Pedaços de parede ardentes caem sobre ele. Buracos se abrem no chão e o fazem ceder. Neste momento passa pelos retalhos das paredes a voz ecoada mais uma vez. Pela última vez. “Adeus!”.

domingo, 2 de setembro de 2007

Sem Destino

As folhas caindo das árvores e uma delas cai no carrinho de
mão de um velho. Uma garota cruzava com ele e olha a folha
dentro do carrinho com curiosidade. Olha as folhas ainda
caindo e pensa que aquela folha caiu casualmente ali, e que
o velho, louco e cego, não percebeu, nem perceberia.

Louco e cego andava, com os olhos no além, nunca no aquém,
anda sem destino, como todos os sem destino, conhece o
caminho de cor. Uma curva aqui, outra ali, uma ponte passada,
uma esquina virada, segue mais quinhentos quilômetros e
chegou, a qualquer lugar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Saudade II

Me lembro do tempo em que sentia saudades de você.
Era um sentimento forte; devastador.
Sinto saudade de ter saudade de você.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Johnny Cash - Hurt

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A Lesma e os Fetichistas

E aqui está o nosso protagonista, uma lesma, cruzando um passadiço de concreto que corta o gramado do parque. Quando estava quase chegando ao outro lado onde procuraria um par para copular, um casal de fetichistas atravessa seu caminho. Depois de observado por longos três segundos, nosso protagonista fica imóvel pelo medo. Então, um belo sapato de salto alto vermelho de bico fino eleva-se vinte centímetros acima de sua cabeça gelada e escorregadia e com o furor do tesão esmaga nosso herói em uma fração de segundos.

[pausa para luto]

Dezoito anos depois o filho do casal de fetichistas assassinos, enquanto dirigia rumo a praia, na mesma fração de segundos em que nosso finado herói morreu, o garoto foi esmagado dentro de seu carro a duzentos quilômetros por hora por um caminhão que transportava gado.
Pobres bovinos.

13/08/07 - 14:33

Loucos

Os loucos são loucos pois sentem a necessidade de fingirem-se de loucos. Se não sentissem tal vontade não seriam loucos. Ora! Está claro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Juntos

Foi encontrada pendurada com a corda no pescoço. Exatamente no meio do quarto, pendendo abaixo do buraco da lâmpada no teto. A polícia fazia o cerco na porta do quarto afastando os curiosos. No chão estava uma criatura, clamando "não!"repetida e pausadamente. Um garoto de mesma idade, com lágrimas dos olhos ao chão. Dizia ao carpete que podia ter evitado aquilo, que era sua culpa. Ela estava grávida, como saberiam todos depois. E ele fora embora. Não era seu filho. Nem ao menos sabia que ela estava grávida. A dois dias ele se fora; cansado; não aguentava mais. Sabia que a saudade seria a beira do insuportável; mas já estava beirando o insuportável ao seu lado.

Não eram nada. Apenas amigos. Não tinham nada em comum. Apenas carregavam um os problemas do outro.

O garoto continuava prostrado de joelhos no chão, chorando copiosamente. Cabeça caída. Sentia a dor da saudade eterna. E subita a dor aumentou perceptivelmente. Não era mais a dor da saudade. A voz lhe sumia gradualmente, engolfada pela dor do coração hiperpulsante. "Parece ter dormido" pensaram alguns. O coração parou. Seguiria agora ao outro mundo junto dela. Ou, se este for o único mundo, seguiriam juntos ao esquecimento.

Dicotomia

Escrito em uma casa vazia,

Cheia apenas de pensamentos,

Memórias e nostalgia.

Morte

Morte. Não é um homem ou uma mulher. Não é humano. Não é uma personagem de quadrinhos. Não é um esqueleto londrino bem vestido. Não é bom, não é mau. Morte é um instante. Um instante depois de o último suspiro de um ser vivo. Um milionésimo de um segundo. É isso que alguns chamam morte. Outros chamam muerte ou décès ou trauerfall.
Vamos seguir este instante. Vou tentar mostrar como é este instante.

A morte aconteceu, ou passou, neste momento na Rússia onde trinta e cinco pessoas estavam dentro de um ônibus enquanto este capotava morro abaixo. Passou agora pela Itália onde um garoto caiu em um rio e um homem idoso estava encolhido em um beco gelado. Passou também pela Colômbia onde tinha quatro pessoas, duas mulheres, um homem e um francês que era um dos mais ricos daquele país. Agora está passando por São Paulo, no Brasil, onde em uma pequena casa tinha uma mulher e uma garota de cinco anos. Bom, com certeza uma sentiria falta da outra e vice-versa, e de fato uma está sendo sentida agora mesmo. Mas não direi qual para poupar-lhe. Na verdade já faz alguns minutos que a morte aconteceu aqui. Eu é que me demorei a relatar.

Enfim. Morte acontece em todos os lugares, em diferentes milionésimos de segundos. Não se pode prever. Simplesmente v

O começo da Modernização

Aquele homem e aquela mulher vivem em uma cabana a cinco minutos de um rio. Todos os dias ele ou ela seguem para o rio e colhem algumas poucas mangas nas árvores próximas. Um certo dia um homem aparece, colhe todas as mangas e diz:
"Escutem! Estas mangas agora são minhas. Tenho-as em posse. Se quiserem possuí-las também, paguem-me. Como sei que não têm como pagar aceitarei que trabalhem para mim colhendo mangas. E assim poderão levar uma manga para casa após o dia de trabalho. É o certo."
E assim foi feito.


Ah! Admirável mundo novo!

Disparates

Você iria a uma praia de nudismo? - perguntou o outro,travesso, com um sorriso nos lábios grossos. Depois de umtempo o encarando, responde o um - Não. - Você pareceu exitar na resposta - sorriu mais ainda,arqueando os lábios borrachudos. - Estava o imaginando sem roupas - respondeu mostrando osdentes troceiros. - Espero ter achado tão engraçado quanto eu o achei, quandoo imaginei sem roupas - disse com o êxtase a mostra, olhossaltados, pensando-se vencedor.A resposta demorou. Estava-lhe perscrutando a face, cadadetalhe, em busca de algo. E o achou. - Tens bonitas sobrancelhas. Invejo-te por isso - disse emum sincero sorriso.O outro perdeu o sorriso, abriu a boca e pasmou... Virou orosto de repelão e foi-se por onde veio.

domingo, 22 de julho de 2007

Misericórdia

Ano 3070 e alguma coisa. Um homem de jaleco branco entra por uma porta seguido por outro homem. Ele começa a explicar coisas sobre o local. Para a frente de uma cama coberta por uma espécie de tampa de vidro. Dentro, um rapaz adormecido.

- Este rapaz terá sonhos eternos. Ele teve muitos problemas na vida. Não merecia ficar vendo tudo aquilo que acontecia no mundo. Então ele resolveu ter sonhos eternos.
- Mas como é feito isso?
- Uh! Descobrimos que algumas substâncias, quando liberadas no sangue, causavam mal-estar. Causando assim pesadelos, sonhos desagradáveis. Nós liberamos, apenas quando necessário, uma substância que anula os efeitos da primeira. E mantemos ele em um sono profundo. Ele recebe, em tempo integral, uma terceira substância que o mantém dormindo. Mas veja vem, que ele não vai morrer por causa da substância. Pois ela apenas o deixa dormindo.
- E como vocês sabem quando injetar a tal substância que anula os efeitos? Não pode haver erros?
- Não! Não, não. Veja, é tudo automatizado. O sangue é puxado de uma veia determinada, passa por uma máquina que analisa o sangue, e quando é detectada a substância, imediatamente é injetada a contra-substância poucos milímetros a frente, na mesma veia. O mesmo sangue que sai, volta para a mesma veia. Não tendo o perigo de necrose por falta de irrigação. Por estar isolado, ele Não pega nenhuma doença. Morrerá de morte natural.
- Não tem perigo de acordar?
- Absolutamente. Então vamos fechar negócio?
- Hum. Está bem.
- Muito bem. Muito bem. Ótima escolha senhor. Sabe que com esse projeto o número de suicídios baixou?
- Mesmo?
- Sim, sim. É uma grande notícia. Eu uma vez li que...

Os dois saem por outra porta e o silêncio impera no local.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A Força do Pensamento

Desceu do trem com roupas comuns e sem luxo, com seus sapatos gastos e passou os olhos ao redor procurando por alguém conhecido.

O primeiro a lhe notar foi Sebastian. E logo pensou "essa não!". O que faz essa rapina aqui? Espero que não me veja.
Droga! Tarde demais.

Vera, era seu nome, abriu um sorriso e partiu ao seu encontro.

- Olá, Sebastian. Que coincidência lhe encontrar aqui.
- Sim, imagino.

Sentaram um a frente do outro ao redor de uma mesinha e ela começou a tagarelar incessantemente.
Enquanto a ouvia, Sebastian pensava:

"Rapina maldita! Deve estar querendo limpar minha carteira de novo. Não tenho dúvidas, veja como ela está vestida. Mas será que ela é realmente mesquinha e egoísta? Talvez seja apenas uma menina de vida sofrida, lutando pela sobrevivência. Eu tenho muito dinheiro, realmente não me importaria em compartilhar um pouco com ela. Talvez assim ela se tornasse a mulher gentil e adorável que devia ser. Será mesmo? Pensando bem... Eu nunca a vi sendo sincera. Sempre mentindo, nenhum gesto de altruísmo, sempre aquelas palavras sujas pingando da boca, vomitando suas insinceridades. E se ela me aprisionar? Se me obrigar a pajeá-la com meu dinheiro? Ela deve conhecer alguns fatos vergonhosos do meu passado, das minhas noitadas na juventude. Não tenho dúvidas de que irá usá-los contra mim, é do seu feitio. Serei obrigado a me casar com ela. Ficarei preso eternamente sob suas garras sujas de carniça. Sou um homem respeitado, não posso me sujeitar a isso. Não! Nunca! Mas o que fazer?! O que?!"

Pensando isso, Sebastian arregala os olhos, avança sobre a mesa, pula sobre Vera gritando "vou matá-la!" enquanto a estrangula. Diante daquela ridícula cena, com um homem deitado na mesa gritando incoerências enquanto sufoca uma mulher e outros homens tentando o impedir, aparecem alguns policiais e o prendem por tentativa de homicídio.

domingo, 24 de junho de 2007

Livre de Preocupações

Um homem está em pé dentro do ônibus lotado, voltando de seu emprego. Cabeça baixa, parecendo desanimado. Dentro de sua cabeça uma confusão, muitas idéias.

Talvez esteja desanimado porque não goste do emprego que tem. Ou talvez por causa do salário baixíssimo. Talvez tenha problemas em casa. Com a esposa. Com a filha. Não. Em sua casa estão todos convivendo muito bem. Deve ser mesmo problema econômico. É muito mais comum. Ele está olhando agora pela janela. Olhando todas as pessoas que passam. As casas e os carros. Alguma coisa o faz virar a cabeça para não perder de vista. Crianças de rua. Mendigando. Talvez esteja pensando no salário. Nas dívidas que continuam aumentando. Talvez pense que logo vai ser despejado da casa que aluga por não poder pagar aluguel. E que talvez sua família logo esteja junto àquelas crianças que acabara de ver. E não há nada que ele possa fazer.

A viagem é longa e cansativa, fazendo-o pegar no sono mesmo de pé.Ele se encontra logo no começo do ônibus. De frente para o vidro frontal. De onde pode ver o motorista.Está ali apenas porque o ônibus está tão lotado que nem passar pelo cobrador conseguiu ainda.

Este lugar não é muito bom. É perigoso demais. E especialmente para ele.Pois em uma fração de segundo, seu sono é perturbado por uma freada brusca. O ônibus bate e para.Ele não. Ele continua indo em frente, passando pelo vidro, por cima de um carro e finalmente aterrissando dolorosamente no chão.Com o susto, todos se levantam e começam a falar juntos. A primeira ação do motorista é olhar para trás para ver a situação dos passageiros. Todos aflitos. Alguns reclamando do motorista. Ninguém havia percebido, que mais à frente, fora do ônibus, havia um corpo imóvel no chão. Nem mesmo o motorista.

Mas pouco tempo depois, ele nota o estado do vidro. Demora um pouco para perceber que alguma coisa atravessou o vidro e fez com que ficasse desse jeito. Mas enfim percebeu, e começou a procurar, passando os olhos em toda a extensão à frente. Foi quando encontrou o homem ferido. Imediatamente soltou o seu cinto de segurança, que foi a única coisa que evitou que ele se juntasse ao homem estendido no chão, e correu para fora do ônibus.

Motoristas de ônibus costumam ter treinamento em primeiros socorros para situações como está. Nem todos davam muita importância para o treinamento por achar que nunca precisariam dele. E, naquele momento, ele se sentiu com sorte por ser um dos que fez o treinamento corretamente. Assim pôde colocar os dedos no lado esquerdo do pescoço do homem e perceber que... ele estava morto.

domingo, 3 de junho de 2007

SM

Chegava em casa de madrugada com a camisa e as mãos ensanguentadas por causa dos desmembramentos, e a primeira coisa que fazia era sentar-se na frente do tabuleiro de xadrez, pensar e fazer um movimento com uma peça.

Ele era o dominante.

Depois tirava a roupa, colocava na máquina, se banhava e ia dormir.De manhã sentava-se do outro lado da mesa enquanto tomava café, pensava, movia um cavalo.

Ele era o dominado.

Quando voltava do trabalho tirava a roupa da máquina, colocava na secadora, olhava para o céu por um minuto... e saía para caçar.

Saindo da escola

O professor de física entrou no largo corredor e começou a andar.

No chão, uma garota sentada o observava sorrindo bobamente e sentindo o gosto remanescente do suco de maçã em sua boca.

O professor vira um pouco o rosto, sorri e continua andando solenemente.

A garota, que já estava sorrindo, continua a sorrir mas sem tirar os olhos do professor, até que ele entra na sala e fecha a porta.

A garota continua olhando para a porta sorrindo e provando o gosto do suco de maçã.

Dez anos depois ela luta para atender os pedidos na lanchonete O Amarelinho.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Crime e Pecado

uma mulher assusta e intriga
uma cidade local...

.............................................vários relatos chegaram
.............................................à polícia local de que
.............................................uma mulher...

aparentemente ela ataca
mulheres e garotas...

.............................................corta-lhes o cabelo
.............................................e depois foge...

a polícia alega que os
alvos são garotas e
mulheres com os cabelos
"bem cuidados". Isso mesmo...

.............................................o incêndio no bosque
.............................................Jaguariumbi foi controlado
.............................................esta tarde...

o início foi de uma fogueira
clandestina...

.............................................os investigadores acharam
.............................................vestígios de que alguém
.............................................estava no centro da fogueira...

a vítima estava envolvida
com o que parece ser
cabelos humanos...

.............................................serão feitos testes
.............................................para ser determinado se
.............................................o cabelo era...

ontem a madrugada mais
fria do ano. Hoje máxima
de sete graus...

domingo, 27 de maio de 2007

Extrato de A.A.

Como se tivesse sido desenhada a sua frente ela põem-se a correr. E entre risos, gritinhos e gracejos o instiga a persegui-la. Ele começa a correr vigorosamente como se sua vida dependesse disso e, sem saber porque, anseia por alcançá-la.

Pisa nas palavras, tropeça nos pontos e vence as exclamações, cada vez chegando mais perto, e mais perto, e ela se deixando alcançar. Ele estica o braço e num rápido virar de páginas ela desaparece. Na brancura cega da página vazia.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Kurenai no Maboroshi [紅の幻]

Não bastasse a falta de eletricidade por causa do atraso em pagar a conta, o apartamento ficava em uma parte escondida do prédio, não lhe permitindo acesso a luz solar. Nesta penumbra vive Jonas Maldique, um escritor fracassado em luta pelo reconhecimento de sua obra. Já não recebe a semanas e tudo que faz agora é dormir por todo o dia embriagado em sua depressão. A dois dias tudo que estava em sua pequena geladeira de solteiro se estragou, apenas contribuindo para seu enfraquecimento moral e físico. Mal podia pensar, tamanho era o cansaço.

O prédio onde habita é muito peculiar. Alto, muito alto, com muitos minúsculos apartamentos por andar. O andar em que morava era um dos mais altos, décimo quinto, havendo apenas mais dois acima deste. Nessa altura o barulho da rua era praticamente nulo. E analisando melhor, o prédio inteiro era um completo silêncio, como o interior de uma tumba. Não haviam vizinhos barulhentos assistindo a televisão; não haviam passos indo e vindo no andar superior; nem crianças brincando no corredor. Pobres das crianças que fossem obrigadas a morar aqui. Aliás, pobres são todos os que devem morar aqui, pois não imagino descrição melhor para os habitantes deste horrível prédio. E pobre é Jonas Maldique, que nestes minutos passados estava pensando porque será que este prédio, com tantos apartamentos, e possivelmente tantas pessoas, era tão silêncioso. Nunca ele havia escutado um barulho que fosse. Talvez todos ali estivessem como ele, eternamente dormentes. Não lhe surpreenderia isso. Não lhe surpreenderia que todos ali estivessem apenas esperando pela morte. Que ninguém sairia mais daquele prédio se não fosse dentro de um saco plástico. E que provavelmente ele seria mais um dentre todos esses.

Seus pensamentos mórbidos foram interrompidos abruptamente quando algo lhe acertou a testa fazendo-o piscar algumas vezes instintivamente e o libertando do transe hipnótico em que ele mesmo se colocara. Estranhou primeiramente que mesmo estando a tantos dias deitado naquela cama, olhando aquele teto não havia percebido aquilo. Uma goteira? Bem em cima de minha cama? Isso não parece certo. O que é isto?

Ainda aturdido por seus pensamentos e por sua fraqueza demorou a perceber a aparente mancha negra sobre si. Uma mancha que se estendia por quase um metro de comprimento e meio de largura. E uma minúscula fração daquela mancha havia caído sobre ele em forma de gota. Uma pesada gota que o despertou de seus sonhos. Não. Isto não é uma goteira comum. Será vazamento de esgoto? Sem nenhuma dúvida pode se sentir um cheiro. A gota, assim que se rompeu, exalou o seu mal cheiro. Mas este não parece ser o fedor seco e abafado de esgoto.

Será mesmo?! Algo tão insólito quanto isto pode estar acontecendo? Com ninguém mais que este coitado que já agoniza seus últimos e tão próximos momentos finais?

Jonas teve força suficiente para arregalar os olhos, como que para ver melhor, como que para demonstrar sua surpresa para as paredes da casa. Quando uma segunda gota começa a se formar, e logo estando pesada o suficiente se desprende da mancha levando um pouco de sua essência, e Jonas grita. Grita grave e demoradamente, até as horas passarem e a gota lhe acertar. Ainda com os olhos (agora) fechados, é sangue, sussurra. Quem não perceberia este cheiro. E quando corajosamente abre os olhos, percebe que estranhamente a mancha antes negra agora assume um tom escuro de vermelho. Ele tenta se levantar antes da terceira gota se formar mas não consegue. E não entende porque, seu corpo parece de chumbo, um peso incrível pousa em seus braços e pernas. Falha até mesmo em se arrastar. Grandessíssimo é o esforço que ele faz para virar a cabeça, mas nem isso ele consegue. Devia ter tentado sair antes, desperdiçou suas forças em um grito inútil, e agora está fadado a tortura.

Quanto tempo já se passou? Um dia, uma semana, semanas? Não se sabe. A escuridão do quarto/banheiro é eterna. Dias passam sem serem percebidos. Quanto tempo ficarei aqui?, pergunta. Já se passaram quantos anos?

Seu corpo magro e desnutrido afunda na cama; seu rosto cansado e sua camisa respingados de sangue; seu colchão encharcado de fluidos; e o fedor que prevalece no ar, sendo respirado eternamente. Eternamente. Eternamente...