quarta-feira, 28 de junho de 2006


Um casal está dormindo em sua cama. O homem levanta e vai para o banheiro.
Lá, encara o espelho enquanto abre a torneira. Ele deixa a água escorrer por suas mãos.
- Eu não posso deixar isso acontecer - Diz ele olhando firmemente nos próprios olhos.
Passa a mão por cima da luminária e puxa uma faca de lâmina grande. Segue para o quarto em passos firmes e decididos e pára próximo a cama.
Puxa a faca na altura do ombro contrário ao braço que a segurava, e sem piscar passa a lâmina no pescoço da mulher.
Logo após o contato com a faca, a pele se afasta e o sangue brota, escorrendo pelo pescoço até encostar-se ao lençol e juntar-se a suas fibras.
Logo, uma mancha vermelha faz parte do lençol, envolvendo a cabeça da mulher.

- Você achou que ia me fazer de trouxa. Fazer-me criar isso. Você não me conhece. Senti-me culpado por ter lido seu diário, mas logo mudei de idéia. Se não tivesse lido, talvez você levasse essa mentira até minha morte. Claro que levaria. Mas cometeu um grande erro por documentar fielmente seus atos.Eu pensei que amasse você, e pior ainda. Que você me amasse.

O homem senta no chão do quarto chorando. Pousa as mãos sobre os joelhos retraídos mantendo a faca pendurada, próxima à perna.
- O que você pensa que eu sou? - Diz com voz chorosa - Um tolo? Um cego? Como conseguiria viver com esse peso? Você é uma pessoa cruel. Desumana. Eu imaginava nosso futuro. Nunca poderia acreditar nisso. Você acabou com a minha vida.
Eu tinha que acabar com a sua. E com a dele também.
Se ele nascesse, seria um amaldiçoado. Ele não teria culpa.
Você matou seu filho!
Eu podia fazer isso, mas você não queria. Não é mesmo?
Você se matou! E muito antes matou seu filho!
Com certeza nos encontraremos logo. O que você fez foi muito pior do que o que eu farei.
Você já havia contado a ele? "Você vai ser pai". Seu miserável. Provavelmente no mesmo dia que me contou. Tão dissimulada.
Eu não fiz nada de errado. Alguma coisa me fez olhar seu diário. Alguém fez isso. Alguém que já sabia de tudo. E não agüentou me assistir vivendo uma mentira. Pois eu agradeço.
Eu não fiz nada de errado. Não foi a minha mão que segurou aquela faca.
Graças a deus não nos encontraremos mais. Você vai para um lugar péssimo. Você merece.
Eu sou a vítima. O iludido.
Adeus.

Um ruído surdo vibra no ar. Procurando ouvidos para ouvi-lo. Mas não havia ninguém ali. Não havia ninguém.