sexta-feira, 28 de julho de 2006

Pilar

Quando sua vida é construída
toda em cima de um pilar.
Cuidado.
Com um simples tremor de terra
ela pode desabar.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

A Lâmina

Senti a lâmina fria entrar no abdômen. Pude sentir o calor deixando o corpo pela ferida. A única coisa que podia ver eram seus olhos a cinco centímetros dos meus. Olhos saltados e assustados. Talvez mais do que os meus.
Eles eram castanhos claros. Muito bonitos. Estavam imóveis, me encarando.
Percebi suas pupilas dilatando. Pareciam agora apenas dois buracos nos olhos que davam acesso ao interior de sua cabeça. Meu tempo estava acabando. Dei um passo atrás, desenterrando assim a lâmina do corpo. Desse jeito seria mais rápido. Perco meu equilíbrio e caio para trás. Ele continua lá, imóvel. Mas seus olhos me seguem para o chão com algum atraso.
A faca cai no chão fazendo a lâmina tilintar. Aquele som rasgava meus ouvidos.
Algumas lágrimas escorrem por seu rosto. Mas porque estaria chorando? Será porque percebeu que eu estava chorando também?
Que triste fim. Morrer vendo um homem chorando. E sem saber o motivo.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Consciência

Quando todos já haviam ido dormir, o garoto foi para a sala e zelosamente abriu a caixinha. De lá, tirou uma máscara de teatro, a da tristeza; uma fantasia de bobo do corte; uma corda para forca; uma camisa de força; um maço de cigarros pela metade; um molho de chaves quebradas; um pequeno espelho rachado; uma garrafa de vodca no final; um violão; um pijama em duas peças; um RG falso; um pedaço de pano branco com um círculo vermelho no meio e um punhal sujo de sangue na lâmina.
- Eu não sabia que tinha tanta coisa aqui. - Murmurou ele. Acho que algumas coisas nós não conseguimos esquecer.

Subitamente, por uma distração, ele deixou a caixinha cair. Ela bateu no chão e se rachou em várias tiras de madeira.
"Como somos frágeis" - Pensa ele. Apenas em uma fração de segundo, pois no segundo seguinte, ele cai no chão como se tivesse desmaiado.

- Venha ver meu filho. Outro jovem morreu por uma bala perdida. Está aqui no jornal. Por isso eu falo pra você tomar cuidado na rua. É muito perigoso e nunca se sabe quando alguma coisa vai acontecer. Aqui diz que ele nem agüentou a ambulância chegar. Morreu antes. Que barbaridade.
- Calma mãe. Isso acontece todo dia. Não é novidade. Se não fosse ele, seria outra pessoa.
- Não é novidade, mas garanto que pra mãe dele foi uma grande novidade. Agente pensa que isso nunca acontecerá conosco. Mas acontece. E quando acontece somos pegos de surpresa e não sabemos o que fazer. Eu fico todo dia esperando que alguém ligue falando que algo de ruim aconteceu com você. É uma agonia. Você não sabe o que é ser mãe. Mas quando tiver seus filhos saberá como é. Espero.
- Anda mãe. Esquece isso e vamos ver o filme.

domingo, 9 de julho de 2006

Fantasmas


Sou um homem aprisionado
Posso ir aonde quiser
Posso fazer o que quiser
Mas quando eles aparecem...
Não posso fazer nada
Não posso dizer nada
Não posso gritar por socorro

Só posso agarrar os meus joelhos,
esconder minha cara em meus braços
e torcer para acabar logo.
Torcer para que eles vão embora

Posso tapar meus olhos
Posso tapar meus ouvidos
Mas ainda assim os vejo, os escuto,
dentro de minha cabeça

Quando eles chegam,
só posso esperar que acabe logo
Sou um homem aprisionado
pelos fantasmas do meu passado

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Sonho

Eu sai do seus sonhos pra te dizer que você não pode mais sonhar.
É isso que você ganha de aniversário.
É isso que você ganha sendo adulta.
Quanto mais você sonhar, mais você vai se machucar.
Então é melhor parar agora enquanto pode.
Antes que não consiga mais sair dos seus sonhos
E se torne algo como eu.
Alguém que vive nos sonhos dos outros.

domingo, 2 de julho de 2006

Os Olhos Das Crianças


A maioria das pessoas já deve ter observado.
E não será novidade se eu disser.
Mas para quem ainda não observou isso, eu vou falar.

Você já reparou que as crianças costumam ter olhos
diferentes dos nossos?
São mais abertos. Arregalados mesmo.
Desde bebês.

Eu tenho uma teoria sobre isso.
Quando as crianças nascem,
tudo é novo para elas.
Elas têm curiosidade em ver tudo.
Botões, luzes, cores.
Nenhum detalhe passa despercebido.
Tudo é mágico e recebido com alegria.
A vida é motivo de felicidade.
E elas têm tudo o que precisam.
Por isso é que elas abrem bem os olhos.
Para poder ver tudo com mais clareza.

Porém, com o tempo,
elas passam a conhecer melhor o mundo.
E percebem que o mundo não é só alegrias.
Então, imperceptivelmente seus olhos vão mudando.
Suas palpebras já não ficam sempre tensas,
abertas para ver o mundo.
Elas começam a se fechar para proteger os olhos.
Protegê-los de todas essas visões.
De toda a crueldade do mundo.
Fazendo assim com que tudo passe desapercebido.
Até o dia em que elas se fecham completamente.
E nada mais vejam.

Coisas boas e ruins se misturam na escuridão e no silêncio sepulcral.