terça-feira, 26 de setembro de 2006

Sangue 4

Uma música tocando, parece não ser notada. Na mesma sala várias pessoas trabalhando. Levanta. Senta. Anda pra lá. Anda pra cá. Lê. Faz careta. Amassa a folha.

De repente a música para. E junto, todos param o que estavam fazendo. Todos juntos olham para uma caixa de som junto ao teto, de onde parecia sair a música. E logo depois todos olham para uma porta no final da sala.

Durante alguns segundos houve um completo silêncio. Então, subitamente todos se levantam, pegam seus casacos, bolsas, pastas e caminham em direção a uma outra porta. O último, quando estava prestes a sair, pega um telefone próximo a porta e disca alguns números. Ficou algum tempo mudo, desligou e saiu. Mais ou menos dois minutos depois dois rapazes jovens entraram na sala e caminharam até a porta no final da sala.
Um deles a abriu e deu de cara com um corpo pendurado por uma corda no pescoço.

- Bom, hoje completaram-se duas semanas. Você me deve 50. – Disse ele subindo em uma cadeira.
- Ok.
Cortou a corda com uma grande tesoura e o corpo caiu no chão provocando assim um estrondo.
- Porque você não o pegou?
- É que esse parece ser pesado. Além disso, não faz diferença nenhuma.
- Vai, dessa vez você ensaca.
- Tudo bem, então você paga a cerveja hoje.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Pingos de Sangue

Coloquei a cabeça para fora da janela.
Senti o vento em meu rosto.
Fechei os olhos.
Despertei com pingos vindos do céu.
Pingos grossos e escuros.
São pingos de sangue.
Preciso entrar o quanto antes.
Não quero me sujar com o sangue dos outros.
Já tenho o meu próprio para me sujar.

sábado, 16 de setembro de 2006

Fragmentos

Um dia conheci uma criatura de magnífica beleza;
Um dia depois, arranquei meus olhos.
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O que os olhos não vêem, o coração não sente;
O que os olhos um dia viram, o coração sentirá para sempre.
Sempre, se não pela presença, então pela ausência.
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A ferida está aberta;
A memória mantém o sangue escorrendo.
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Arranquei meus olhos na esperança de nunca mais te ver,
e assim conseguir esquecer seu rosto que sustenta meu
sofrimento.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Como as Coisas São

Um soldado desarmado
No meio do campo de batalha
A procura de seu escudo
Temendo a morte.

Enfim, o escudo em punho
O corpo ébrio de coragem
Porém, às costas
Uma espada o atravessa
Seu antes companheiro diz
Desculpe, é assim que as coisas são

terça-feira, 12 de setembro de 2006

O Plano

Estou triste. Quer saber o motivo? Pois bem. Fui demitido hoje depois de 20 anos no mesmo emprego. Estou velho e dificilmente arranjarei outro emprego. "Como sustentarei minha família?" pensei comigo. Cheguei em casa e descobri que minha mulher me trai... Com meu melhor amigo. A bastante tempo. Bom, pelo menos uma boa notícia. Não teria mais dinheiro para sustentá-la mesmo.

Que tal isso? Não é um bom motivo para se estar triste? Gostaria que isso fosse verdade. É, a estória que contei a pouco não é verdade. A verdade é que não sei porque estou triste. Não sei se existe um motivo. Deve haver. Por mais ridículo que seja, deve existir um motivo para isso. Talvez o motivo seja esse mesmo. Não ter nada. Antes eu disse que havia sido demitido, mas nem um emprego eu tenho para ser demitido. Disse que fui traído por minha mulher. E com meu melhor amigo. Não tenho nenhum dos dois. Nunca tive. Só uma coisa tem de verdade no que eu disse. Estou velho. Velho para casar. Velho para arranjar um emprego. Velho para consertar minha vida.

– O senhor ainda está acordado?
– Estou sem sono, enfermeira. Mas não se preocupe que logo ele chega. Opa, olha ele ali na esquina. Acene por mim, sim. Sabe que eu não posso.
– Está bem. Já chega. Tente dormir um pouco.

Você me pegou. É, estou no hospital. Mas aposto minhas pernas como não sabe o porque. Mas eu conto.
A história que estava contando foi antes de vir parar neste hospital. Como eu dizia, eu não tinha nada. Emprego, esposa, amigos ou família. E sempre odiei a solidão. Mas nunca fui muito extrovertido, desses que fazem amizades com muita facilidade. Tenho um gênio complicado e poucos são os que apreciam isto. Para falar a verdade eu não encontrei uma pessoa sequer que gostasse. Por isso passei a maior parte da vida solitário. Minha família... Não gosto de falar sobre isso. Meus pais morreram quando eu era muito jovem, por isso não me lembro deles. Fui criado por um tio que não gostava de mim. Na verdade ele não ligava para mim. Mal falava comigo.
Enfim. Um dia ele acabou morrendo. Bala perdida. Foi enterrado como indigente por não ter dinheiro para pagar o próprio funeral. Ou talvez por não ter documentos, não sei ao certo. Não me preocupei em fazer nada. Nem fui ao enterro. Não tinha porque ir. Fazer-me de hipócrita. O fato é que, ele não tinha descendentes. Eu era o mais próximo. Ele não tinha um testamento ou algo parecido, afinal era mais miserável que eu. Pra que ter um testamento de umas poucas linhas? E, além disso, ninguém espera morrer assim, de repente.

Então eu recebi o apartamento dele. Um apartamento minúsculo em uma área industrial da cidade. As ruas aqui, assim como tudo o mais, parecem ser cenários de um filme antigo. Tudo cinza. Muito animador, sabe? Caminhões passam na rua a cada minuto. Mesmo à noite. Já havia me esquecido como o silêncio era.

Você talvez esteja pensando como vivi tanto tempo nessa situação, sem nem mesmo ter um emprego. Eu lhe digo. Eu fazia uns bicos. Qualquer coisa que me desse um pouco de dinheiro. Dentre todas as coisas que eu fiz em todos esses dias, nenhuma eu sabia fazer. Mas fiz mesmo assim. Não tinha nada a perder. Passei fome alguns dias. Em outros eu conseguia comprar comida.

Talvez você não tenha pensado nisso, mas hoje eu penso. Como agüentei isso? Não seria mais fácil desistir de tudo e se deixar morrer? Talvez. Com certeza acabaria o sofrimento. Mas a verdade é que eu gosto de viver. Gosto de observar a vida ao redor. Observar as pessoas andando na rua. Cuidando de suas vidas. Cada uma indo para um lugar diferente, mas todas passando pelo mesmo lugar. Passando pela minha vista.
Adorava pensar que cada uma daquelas pessoas tinha uma vida. Uma família. Amigos. Que de alguma forma estavam todas interligadas. Talvez algum amigo de um amigo de um amigo dessa pessoa conheça esta outra pessoa que acaba de passar do seu lado. Mas elas ignoram esse fato e nem se olham no rosto. Cada uma dessas pessoas tem um passado. Cada uma tem sua própria linha do tempo. Que é diferente de qualquer outra, mas que a qualquer momento pode vir a se cruzar. E novamente elas se interligam de alguma forma inesperada. Uma pessoa, um lugar, um pensamento, uma ocasião.

Desculpe me por isso. Acho que me desviei do caminho que estava seguindo. Mas já retornei.

Um dia cansei-me da solidão. E comecei a pensar em um jeito de acabar com ela. Então descobri um jeito. E tenho orgulho do meu plano. É bem engenhoso.
Eu esperei um momento em que o prédio estivesse sem muito movimento. Essas horas em que a maioria das pessoas já saiu para trabalhar. Então eu saí do meu apartamento, tranquei a porta e arrombei-a dando chutes. Você já vai saber porque. Dei, então, um tapa bem forte no meu rosto. Baguncei as coisas, como se tivessem sido reviradas. Então peguei o telefone e liguei para a policia. Usei um pano no fone para disfarçar a voz, assim como vi em alguns filmes, e disse que ouvi batidas fortes na porta como se tivessem arrombando e depois um grito. Disse o endereço do apartamento como sendo um vizinho e depois desliguei.
Essa parte foi a que eu mais gostei. Fui um tremendo ator. Fingi-me de assustado e ficou muito bom. Talvez eu tivesse futuro como ator. Se alguém tivesse me descoberto quando jovem. Certo, um pouco pretensioso esse comentário, mas não somos impedidos de sonhar. O importante é que deu certo. Logo depois do telefonema, eu não poderia perder tempo, pois os policiais chegariam a qualquer momento. Eles só demoram pra chegar quando é um caso verdadeiro. Outra coisa que se aprende em filmes.
Bom, então eu fiz o que devia fazer, e tive que ter muita coragem para fazer isso. Quebrei meu próprio pescoço. Na verdade não sei se cheguei a quebrar de verdade. Sei que foi o suficiente para me fazer ficar inconsciente e causar um grave dano.

E foi assim que eu resolvi o meu problema de solidão e todos os outros problemas da minha vida. Agora estou no hospital, deitado nesta cama sem poder me mexer. Parece que de algum modo o dano foi baixo o suficiente para me permitir movimentar o pescoço. Então posso virar a cabeça para onde quiser. Mas o resto do corpo está paralisado, sem chances de recuperação. Acabei descobrindo que na verdade o plano foi muito tolo e inconseqüente. Poderia ter morrido, ou pior, ficar também com o pescoço paralisado. Mas na vida, às vezes, temos que nos arriscar. Mesmo se for um risco grande demais para se correr. No final de tudo acho que tenho sorte. Tenho meu pescoço em ordem, enfermeiras o tempo todo para observar e conversar. Tenho até um colega de quarto. Foi atropelado por um carro e quebrou as duas pernas. Tem mulher e filhos em casa. Ele sim tem azar. Duas pernas quebradas. Não queria ser ele.
Mas no final tudo acabou bem. Tenho até uma janela grande ao lado da cama para ver a rua e as pessoas que passam por ela. Depois de um tempo pedindo que me colocassem aqui, eles decidiram aceitar o pedido. Já que vou ficar aqui por um bom tempo. Enfim tenho tudo que quero. Agora estou feliz. Mas na verdade acho que por ficar tempo demais no hospital sobre tais circunstâncias eu já estou começando a ficar meio louco. Acho que ficar falando sozinho por tanto tempo é sinal de loucura. Então acho melhor parar agora antes que não tenha volta.

Enfermeira!