domingo, 27 de maio de 2007

Extrato de A.A.

Como se tivesse sido desenhada a sua frente ela põem-se a correr. E entre risos, gritinhos e gracejos o instiga a persegui-la. Ele começa a correr vigorosamente como se sua vida dependesse disso e, sem saber porque, anseia por alcançá-la.

Pisa nas palavras, tropeça nos pontos e vence as exclamações, cada vez chegando mais perto, e mais perto, e ela se deixando alcançar. Ele estica o braço e num rápido virar de páginas ela desaparece. Na brancura cega da página vazia.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Kurenai no Maboroshi [紅の幻]

Não bastasse a falta de eletricidade por causa do atraso em pagar a conta, o apartamento ficava em uma parte escondida do prédio, não lhe permitindo acesso a luz solar. Nesta penumbra vive Jonas Maldique, um escritor fracassado em luta pelo reconhecimento de sua obra. Já não recebe a semanas e tudo que faz agora é dormir por todo o dia embriagado em sua depressão. A dois dias tudo que estava em sua pequena geladeira de solteiro se estragou, apenas contribuindo para seu enfraquecimento moral e físico. Mal podia pensar, tamanho era o cansaço.

O prédio onde habita é muito peculiar. Alto, muito alto, com muitos minúsculos apartamentos por andar. O andar em que morava era um dos mais altos, décimo quinto, havendo apenas mais dois acima deste. Nessa altura o barulho da rua era praticamente nulo. E analisando melhor, o prédio inteiro era um completo silêncio, como o interior de uma tumba. Não haviam vizinhos barulhentos assistindo a televisão; não haviam passos indo e vindo no andar superior; nem crianças brincando no corredor. Pobres das crianças que fossem obrigadas a morar aqui. Aliás, pobres são todos os que devem morar aqui, pois não imagino descrição melhor para os habitantes deste horrível prédio. E pobre é Jonas Maldique, que nestes minutos passados estava pensando porque será que este prédio, com tantos apartamentos, e possivelmente tantas pessoas, era tão silêncioso. Nunca ele havia escutado um barulho que fosse. Talvez todos ali estivessem como ele, eternamente dormentes. Não lhe surpreenderia isso. Não lhe surpreenderia que todos ali estivessem apenas esperando pela morte. Que ninguém sairia mais daquele prédio se não fosse dentro de um saco plástico. E que provavelmente ele seria mais um dentre todos esses.

Seus pensamentos mórbidos foram interrompidos abruptamente quando algo lhe acertou a testa fazendo-o piscar algumas vezes instintivamente e o libertando do transe hipnótico em que ele mesmo se colocara. Estranhou primeiramente que mesmo estando a tantos dias deitado naquela cama, olhando aquele teto não havia percebido aquilo. Uma goteira? Bem em cima de minha cama? Isso não parece certo. O que é isto?

Ainda aturdido por seus pensamentos e por sua fraqueza demorou a perceber a aparente mancha negra sobre si. Uma mancha que se estendia por quase um metro de comprimento e meio de largura. E uma minúscula fração daquela mancha havia caído sobre ele em forma de gota. Uma pesada gota que o despertou de seus sonhos. Não. Isto não é uma goteira comum. Será vazamento de esgoto? Sem nenhuma dúvida pode se sentir um cheiro. A gota, assim que se rompeu, exalou o seu mal cheiro. Mas este não parece ser o fedor seco e abafado de esgoto.

Será mesmo?! Algo tão insólito quanto isto pode estar acontecendo? Com ninguém mais que este coitado que já agoniza seus últimos e tão próximos momentos finais?

Jonas teve força suficiente para arregalar os olhos, como que para ver melhor, como que para demonstrar sua surpresa para as paredes da casa. Quando uma segunda gota começa a se formar, e logo estando pesada o suficiente se desprende da mancha levando um pouco de sua essência, e Jonas grita. Grita grave e demoradamente, até as horas passarem e a gota lhe acertar. Ainda com os olhos (agora) fechados, é sangue, sussurra. Quem não perceberia este cheiro. E quando corajosamente abre os olhos, percebe que estranhamente a mancha antes negra agora assume um tom escuro de vermelho. Ele tenta se levantar antes da terceira gota se formar mas não consegue. E não entende porque, seu corpo parece de chumbo, um peso incrível pousa em seus braços e pernas. Falha até mesmo em se arrastar. Grandessíssimo é o esforço que ele faz para virar a cabeça, mas nem isso ele consegue. Devia ter tentado sair antes, desperdiçou suas forças em um grito inútil, e agora está fadado a tortura.

Quanto tempo já se passou? Um dia, uma semana, semanas? Não se sabe. A escuridão do quarto/banheiro é eterna. Dias passam sem serem percebidos. Quanto tempo ficarei aqui?, pergunta. Já se passaram quantos anos?

Seu corpo magro e desnutrido afunda na cama; seu rosto cansado e sua camisa respingados de sangue; seu colchão encharcado de fluidos; e o fedor que prevalece no ar, sendo respirado eternamente. Eternamente. Eternamente...

quinta-feira, 17 de maio de 2007

É a vida I

Nossa "história" conta a história de um herói. Como muitos costumam dizer, os verdadeiros heróis sãos bombeiros e etc. Mas vamos nos ater aos bombeiros. Em um particular bombeiro. O bombeiro 3553. E como toda história (boa ou ruim) precisa de um vilão, temos um. Mas quem será o vilão desta história? O Incendiário X. Um criminoso inescrupuloso. Ele odeia tudo, principalmente os bombeiros. Constantemente se lembra do seu passado dolorido. Sua casa. O fogo que a consumiu. E os bombeiros parados sem fazer nada enquanto seus pais esturricavam. Como podem ser chamados de heróis esses tipos? Por isso, o Incendiário X queima casas, apartamentos e qualquer coisa que esteja no caminho. Sempre odiando a tudo. Mas principalmente, odiando os bombeiros. Malditos bombeiros, diz ele. Como alguém pode ter tanto ódio assim?
E é aqui que acaba a nossa história, quando o Incendiário X foi encontrado em seu apartamento, morto. Causa: ataque cardíaco. Não é de se surpreender. Tanto ódio assim, por tanto tempo, não podia acontecer outra coisa. Ainda mais que ele estava na idade de risco. Mas parece que não foi apenas de ódio que ele morreu. Os detetives encontraram muitos pacotes de coxinha de frango congeladas. Com tanto ódio e tantos planos incendiários ele não tinha tempo para cozinhar algo mais saudável.
Então, mais uma vez o bem triunfou sobre o mal (ignoramos aqui o fato de que o bombeiro 3553 traficava heroína). E agora só existem alguns pequenos incendiários aqui e ali. Mas nada com que devemos nos preocupar. Isso é comum. O que importa é que essa estória é real. Nada de heróis fantasiosos, mundos paralelos e essas mentiras. Só a verdade.
E nossa próxima história será sobre o cãozinho que deixou de ser herói quando não salvou seu dono de ser atropelado por um jipe do exercíto dirigido por um militar bêbado.
Aguarde!

17/5/2007 18:28

sábado, 12 de maio de 2007

bah

Hoje vi algo impressionante. Uma criatura carregando, com as mandíbulas, outra criatura com pelo menos três vezes mais o tamanho de si por um mar de pedras de 5, 10, talvez 15 quilômetros! Não bastasse isso, a criatura percorreu a distância toda de costas! Conhece fato mais hercúleo que este? Deviam dá-la o prêmio Guinness World Records.

- Cala tua boca, criança tosca, que estou a ver novela!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Cultura Popular

Um carro preto de repente parou no meio da rua fazendo com que os outros atrás também parassem e que alguns transeuntes o olhassem. Baixa-se então o vidro do tal carro e uma mão branca aparece acenando para que passem-no. O último dos carro, um cor vinho, enquanto passa, toca a buzina e levanta a mão o motorista fazendo um gesto que não se sabe ao certo o que dizia. Vendo isso, o primeiro motorista, o do carro preto, se enfurece e grita alguns nomes chulos. Antes que terminasse de praguejar nota que o carro vinho parou e dele saiu um homem com seus quarenta e tantos anos, já com cabelos grisalhos. Este, dirigindo-se ao blasfemador, diz "Olá, camarada. Sinto muito se me compreendeste mal. O sinal que fiz a ti era simplesmente um aceno em agradecimento pela bondade de o senhor ter nos orientado, sem perder tempo, de que se demoraria e que deveríamos seguir contornando-o, e a buzina foi apenas para o meu aceno não lhe passar desapercebido, embora admito não ser este um motivo muito convincente para o uso de tão irritante instrumento. Sem mais o que dizer me despeço do compreensivo senhor."

E mais uma briga de trânsito, e porque não uma possível morte desnecessária, foram evitadas. Antes assim fossem todos os cidadãos desta cidade. Mas enquando eu escrevia e você lia esta última frase o motorista do carro preto emparelhou-se com o carro cor vinho, que ainda estava parado, e disse "O senhor não me venha a fiar esta conversa de grego, que é pior que os presentes destes, e ficar a troçar de minha paciência, pois tenho uma ótima vista e mesmo não tendo certeza do que vi, sei que vi, ainda que não sabendo o que significa. Pois saiba que não aturarei escárnio que me tenha por alvo." e mirando a cabeça do outro com um calibre 38, que é famoso por seu tamanho diminuto e por seu facílimo manuseio, lançou-lhe um projétil que alojou-se entre uma vista e outra do agora defunto, e saiu com os pneus a cantar.

Tivemos sim uma morte desnecessária, se é isto que estás pensando, mas entretanto não podemos nos queixar do quão articulados são os cidadãos desta cidade.

10/05/07 - 16:45

domingo, 6 de maio de 2007

Fiel

5 de fevereiro - Sra. Mirna, estou lhe enviando o dinheiro combinado. Por favor arrume a casa. Iremos, talvez, neste fim de semana. Obrigado

11 de março - Olá, Sra. Mirna. Como está o seu filho? Iremos nesta sexta-feira, se Deus quiser. O dinheiro está no envelope como sempre. Muito obrigado.

7 de abril - Sra. Mirna, obrigado pela ajuda. No envelope está o seu último cheque. Não voltaremos mais a esta casa. Estamos todos mortos. Obrigado.

05/05/07 - 11:15

sexta-feira, 4 de maio de 2007

A Mosuca

Entrou em desespero quando sentiu
todas aquelas moscas pousando em seu rosto.
Debatia-se, estapeava-se e nada adiantava.
Elas iam e vinham. Umas atrás das outras.
Debatia-se mas não podia se mover.
Estava preso dentro de um corpo inerte.

A tampa foi posta. Ficaria,
agora, sozinho com a eternidade.

[baseado em O MORITURO de Mario Quintana]

02/05/07 - 12:20

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Vazio

No que parece ser o interior de uma fábrica...

- Não!
   Mas eu pensei..que você...
   Nãão! Nãão!
   Vazio! Vazio!
   Não.
   Enche! Me eenche!
   AAAAA!



   ...aaaaa!

E os gritos repetitivos continuam ecoando, cada vez mais longe. A verdade é que nós é que estamos nos afastando.

30/04/07 - 02:02