segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Saudade II

Me lembro do tempo em que sentia saudades de você.
Era um sentimento forte; devastador.
Sinto saudade de ter saudade de você.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Johnny Cash - Hurt

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A Lesma e os Fetichistas

E aqui está o nosso protagonista, uma lesma, cruzando um passadiço de concreto que corta o gramado do parque. Quando estava quase chegando ao outro lado onde procuraria um par para copular, um casal de fetichistas atravessa seu caminho. Depois de observado por longos três segundos, nosso protagonista fica imóvel pelo medo. Então, um belo sapato de salto alto vermelho de bico fino eleva-se vinte centímetros acima de sua cabeça gelada e escorregadia e com o furor do tesão esmaga nosso herói em uma fração de segundos.

[pausa para luto]

Dezoito anos depois o filho do casal de fetichistas assassinos, enquanto dirigia rumo a praia, na mesma fração de segundos em que nosso finado herói morreu, o garoto foi esmagado dentro de seu carro a duzentos quilômetros por hora por um caminhão que transportava gado.
Pobres bovinos.

13/08/07 - 14:33

Loucos

Os loucos são loucos pois sentem a necessidade de fingirem-se de loucos. Se não sentissem tal vontade não seriam loucos. Ora! Está claro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Juntos

Foi encontrada pendurada com a corda no pescoço. Exatamente no meio do quarto, pendendo abaixo do buraco da lâmpada no teto. A polícia fazia o cerco na porta do quarto afastando os curiosos. No chão estava uma criatura, clamando "não!"repetida e pausadamente. Um garoto de mesma idade, com lágrimas dos olhos ao chão. Dizia ao carpete que podia ter evitado aquilo, que era sua culpa. Ela estava grávida, como saberiam todos depois. E ele fora embora. Não era seu filho. Nem ao menos sabia que ela estava grávida. A dois dias ele se fora; cansado; não aguentava mais. Sabia que a saudade seria a beira do insuportável; mas já estava beirando o insuportável ao seu lado.

Não eram nada. Apenas amigos. Não tinham nada em comum. Apenas carregavam um os problemas do outro.

O garoto continuava prostrado de joelhos no chão, chorando copiosamente. Cabeça caída. Sentia a dor da saudade eterna. E subita a dor aumentou perceptivelmente. Não era mais a dor da saudade. A voz lhe sumia gradualmente, engolfada pela dor do coração hiperpulsante. "Parece ter dormido" pensaram alguns. O coração parou. Seguiria agora ao outro mundo junto dela. Ou, se este for o único mundo, seguiriam juntos ao esquecimento.

Dicotomia

Escrito em uma casa vazia,

Cheia apenas de pensamentos,

Memórias e nostalgia.

Morte

Morte. Não é um homem ou uma mulher. Não é humano. Não é uma personagem de quadrinhos. Não é um esqueleto londrino bem vestido. Não é bom, não é mau. Morte é um instante. Um instante depois de o último suspiro de um ser vivo. Um milionésimo de um segundo. É isso que alguns chamam morte. Outros chamam muerte ou décès ou trauerfall.
Vamos seguir este instante. Vou tentar mostrar como é este instante.

A morte aconteceu, ou passou, neste momento na Rússia onde trinta e cinco pessoas estavam dentro de um ônibus enquanto este capotava morro abaixo. Passou agora pela Itália onde um garoto caiu em um rio e um homem idoso estava encolhido em um beco gelado. Passou também pela Colômbia onde tinha quatro pessoas, duas mulheres, um homem e um francês que era um dos mais ricos daquele país. Agora está passando por São Paulo, no Brasil, onde em uma pequena casa tinha uma mulher e uma garota de cinco anos. Bom, com certeza uma sentiria falta da outra e vice-versa, e de fato uma está sendo sentida agora mesmo. Mas não direi qual para poupar-lhe. Na verdade já faz alguns minutos que a morte aconteceu aqui. Eu é que me demorei a relatar.

Enfim. Morte acontece em todos os lugares, em diferentes milionésimos de segundos. Não se pode prever. Simplesmente v

O começo da Modernização

Aquele homem e aquela mulher vivem em uma cabana a cinco minutos de um rio. Todos os dias ele ou ela seguem para o rio e colhem algumas poucas mangas nas árvores próximas. Um certo dia um homem aparece, colhe todas as mangas e diz:
"Escutem! Estas mangas agora são minhas. Tenho-as em posse. Se quiserem possuí-las também, paguem-me. Como sei que não têm como pagar aceitarei que trabalhem para mim colhendo mangas. E assim poderão levar uma manga para casa após o dia de trabalho. É o certo."
E assim foi feito.


Ah! Admirável mundo novo!

Disparates

Você iria a uma praia de nudismo? - perguntou o outro,travesso, com um sorriso nos lábios grossos. Depois de umtempo o encarando, responde o um - Não. - Você pareceu exitar na resposta - sorriu mais ainda,arqueando os lábios borrachudos. - Estava o imaginando sem roupas - respondeu mostrando osdentes troceiros. - Espero ter achado tão engraçado quanto eu o achei, quandoo imaginei sem roupas - disse com o êxtase a mostra, olhossaltados, pensando-se vencedor.A resposta demorou. Estava-lhe perscrutando a face, cadadetalhe, em busca de algo. E o achou. - Tens bonitas sobrancelhas. Invejo-te por isso - disse emum sincero sorriso.O outro perdeu o sorriso, abriu a boca e pasmou... Virou orosto de repelão e foi-se por onde veio.