sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Vida

Ela entrou na casa; em cada canto, em cada cadeira, em cada sofá jaziam os corpos trêmulos, espasmódicos, suspirosos. Estavam todos drogados, extasiados de vida; tinham vida a sair pelas narinas. E ela continuou andando através desses seres com repugnância e horror na face. Via os rostos contorcidos, as pálpebras tremulantes. Em um desses rostos encontrou Álvaro. Estava igual a todos os outros; suspirava. Quando percebeu os movimentos próximos, abriu os olhos e a reconheceu. "É soberbo", disse com voz sumida. Uma lágrima escorre pelo rosto dela, "eu sei", "já se passaram quantas horas?", "dezessete. Já é o suficiente?", ele diz que sim com a cabeça; Ela afasta-se.

Logo ele começa a acordar do torpor. Mexe-se lentamente, como uma preguiça. Apóia-se na cadeira, senta mais ao fundo, curva o tronco para a frente segurando a cabeça com as mãos. Os lábios contraem-se, as bochechas caem; ele sente o gosto amargo na boca. Ela volta, "vamos?", "sim", responde ele levantando-se da cadeira lentamente. Ela vai à frente martelando os tacos soltos com os saltos altos e ele, logo atrás, os varre arrastando as sandálias.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ignorância

Não sou inteligente o bastante para lutar contra a ignorância deles.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Introspecção

A água estava escura e imóvel, mas quente. Ela cabisbaixa pensa. E vê algo. Um dedo saindo esticado da água. Depois uma mão, um braço, uma cabeça.
“Então, nesse mesmo dia, à muito tempo atrás, você nasceu?”. Mexe a cabeça. No pequeno movimento a ponta dos cabelos encosta na água, se afasta encharcada. Uma gota cai da ponta dos cabelos até a água levemente ondulante. Morde o lábio inferior. “Muito tempo. Está desgastada, enrugada”. Aperta mais forte. Apóia-se na ponta dos pés na borda da banheira e a encara. “Sei como é isso. Mas sou apenas uma sombra”.

“Vou te contar uma história. Um dia ela morreu. Fim”. Um dia... “E a sombra se desvaneceu. Todo dia você é um rascunho. Mas no último dia você é um trabalho pronto. As pessoas vão olhar, admirar, criticar, e esquecer”.

Uma outra gota cai na água e a onda produzida arrasta a escuridão. Vê seus joelhos. Odeia seus joelhos. “Até outro momento”. A luz se acende e o reflexo na água ofusca seus olhos. Ela sai da banheira, coloca um casaco pesado por cima da pele e sai para as ruas vazias. Pára na frente de um prédio, olha para uma janela e espera uma coisa. Não há luz. Dormem. Ela nunca chora, mas agora desejaria poder.

Mais uma noite de vigília. Sentimentos desesperados. Nostalgia cruel. Anos passados. Vida desperdiçada.