terça-feira, 18 de março de 2008

Crianças Não Têm Problemas

Chegara as férias. Nos apartamentos acima todos ouviam os gritos das crianças que corriam e se perseguiam no pátio. Ah, como é bom ser criança. Não ter problemas na cabeça.

As crianças, aos punhados, passavam a toda hora umas atrás das outras. Jorge apenas olhava; olhava o céu. Sentado na mureta de dez centímetros observava o céu. Gostava de olhar o céu, as nuvens e suas variações de cor e formato.

- Está bem? - pergunta uma garota.
- Sim.

Ela continua a correr. O punho fechado o acerta no rosto. Ele fecha os olhos para senti-lo melhor. Observa o céu, mas agora com as pálpebras apenas, porque por trás das pálpebras ele observa o soco. O soco que acerta a face de sua mãe, e a risca de sangue que escorre de sua face. Papai está bravo. Está com o orgulho ferido e precisa de seu remédio. Por isso
ele chega em casa e acerta em mamãe. Agora está melhor. Sentado no sofá, ele sente que tem o poder de volta. Sente-se mais homem do que antes.

É a quinta vez neste mês. Mas ele toma o remédio e melhora. Espero que ele não tenha mais frustrações na vida, para não ter que tomar o remédio outra vez. Papai sente-se mal. Sente-se preso a esta vida, a esta família. Sente-se frustrado por não ter conseguido realizar nenhum de seus sonhos. Mas papai tem seu remédio. E tudo está bem agora.

Lá está o céu.
Com seu vermelho vivo, suas nuvens escuras e uma grande cicatriz que se põem no horizonte. Uma cicatriz que verte luz e céu. Uma cicatriz que verte e pinta o céu de vermelho. Uma cicatriz que se põe e torna a retornar no outro dia.