segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Que Venha a Solidão Como Deve Ser

- O que foi aquilo?
- Nada, não sei. Não aconteceu nada!
- Você simplesmente me deu as costas no meio da rua!
- Eu já disse que não sei o que aconteceu!
- Mas não é possível. Como pode isso?
- Quer saber mesmo? Eu te digo o que aconteceu. Não agüento sua cara de bosta. Você me sufoca. Sempre a minha volta, me rodeando, falando, perguntando, egoísta em todos os seus comentários. Me deixe em paz!
- Mas de onde veio isso? A quanto tempo você pensa tudo isso?
- Desde sempre, nunca te aturei de verdade.
- Então por quê não disse nada antes? Por quê nunca me falou como estava se sentindo?
- Eu estou doente. Não me pergunte o que tenho porque não importa. Mas vou morrer logo.
- Como...? E não me diss...
- Não! Não disse. Não quis dizer. Me deixe em paz. Me deixe morrer sozinha.
- Eu entendi. Entendo que isso é muito difícil para você lidar e por isso age assim, me afastando. Mas eu estou aqui para te ajudar. Não vou te deixar.
- Vai embora! Não te quero por perto. Não me entende? Vai embora! Some! Eu te odeio! Quer ouvir de novo? Eu realmente te odeio!
- Entendo. Eu vou estar por perto, basta me ligar que eu venho logo.
- Não!! Me deixa em paz! Vai embora logo e não volta nunca mais! Nunca mais!

Talvez ela estivesse mesmo reagindo mal à doença. Talvez estivesse perdendo a razão ou simplesmente a calma por saber tão repentinamente que ia morrer. E tão jovem. Mas talvez ela realmente não gostasse dele. Talvez mesmo o odiasse. Então por quê estaria com ele por todo esse tempo? Medo de solidão. É muito comum nos tempos modernos onde o toque está cada vez mais escasso. Ela tinha pavor de ficar sozinha e por isso aturava qualquer um desde que tivesse sua companhia. Ela sempre foi impulsiva, obsessiva. Era apenas questão de tempo até que isso afetasse sua vida de tal forma. Suprimiu por tanto tempo o ódio que tinha dele que quando descobriu sobre a doença não agüentou e o escorraçou. Não agüentaria ficar junto dele nem mais um minuto. Por isso o ato tão violento.
Ao menos ele reagiu de uma forma contida. Pior seria que fosse impulsivo e violento também. Não teria terminado bem.

Ela agora aliviada de certa forma pela presença repudiável ter ido embora deixou-se cair no chão e chora. Chora franzindo todo o rosto, apertando os olhos sofridos, esgarçando a boca fina. As lágrimas caindo sobre seu colo. Chora tanto por estar morrendo quanto por estar sozinha. Reconsidera chamá-lo de volta apenas para que tenha alguém por perto. Sabe que é loucura, mas não consegue evitar de pensar nisso. É um vício.

Tivesse amigos e podia ligar para eles, chamá-los, pedir que ficassem com ela, que não a abandonassem. Mas não os tinha. Nunca teve. Conseguia apenas manter uma pessoa de cada vez. Tinha medo de perder a companhia se procurasse por outras. Como se esvanesce-se apenas por olhar para outra pessoa.

Ela era extremamente ciumenta, por isso achava natural que todos fossem iguais. E ela sabia que provocar o ciúmes de outro era algo imperdoável. Por isso nunca olhava para os outros, mesmo quando estava sozinha - nas poucas vezes em que isso ocorria.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vingança

Tocou a campainha. Atendeu-a um homem gordo de uns cinqüenta anos que, reconhecendo o visitante se preparava para pergunta “que...”, quando o garoto se virou de costas, pegou um revolver do bolso e atirou dentro da própria boca fazendo a bala sair pelo topo da cabeça e espirrando sangue na cara do velho, que estava estático, com olhos e boca bem abertos.


Havia pensado, “se eles pretendem me prender, vou fazer isso antes, foi o que prometi”. Estava sempre com aquilo na sua cabeça; prometeu e cumpriria. Queria que o tio sofresse, assim como ele sofreu, vendo sua mãe tendo que fazer todo tipo de trabalho sujo e podre, se humilhando para sustentar a família. Vendo o seu pai pelos cantos da casa com a vida a se dissolver. E o bosta do tio fazendo de tudo para não ajudar. Fingia desconhecer os fatos. Quando alguém comentava, ele fugia do assunto, se escondia para depois alegar que não sabia.

O tio era rico. Tomou a empresa do irmão, se aproveitando que este tinha problemas com a jogatina, vendeu-a e fez dinheiro. O irmão logo se jogou de um prédio turístico no centro da cidade. Ele foi ao enterro e fez um belo discurso para o amado irmão.


Quando seu pai finalmente morreu, a mãe pediu abrigo ao tio já que sua casa havia sido tomada pelos credores. A casa do tio era grande para todos, mas ele alegou que estava fazendo uma grande reforma e que assim não poderia ajudá-los.


Quando sua mãe morreu, foi morar na casa do tio, decidido assim pelo juiz por ser o parente mais próximo e capaz de criá-lo. Na casa não dava descanso ao garoto. Não o deixava sair nunca e enchia-o de tarefas.


Quando finalmente completou dezoito anos, saiu daquela casa, para gozo do tio que sonhara com aquilo por dois anos. Envolveu-se em protestos políticos sempre tomando partido dos mais pobres, até começar a ser procurado pela polícia por acusação de agitador e perturbador da ordem pública. Quando descobriu que estavam mesmo atrás dele, sabe-se lá com que outros vis intuitos, pensou “se eles pretendem me prender, vou fazer isso antes, foi o que prometi”.