sábado, 27 de dezembro de 2008

Infância

Ela passava naquela rua todos os dias. E eu estava sempre por lá. No primeiro dia eu estava lá a mando de meu pai. Tinha ido buscar uma caixa de tâmaras como pagamento por um serviço. E então ela passou, passou por mim sem nem me perceber. Mas eu a notei, a segui com os olhos, e notei as curvas que seu vestido fazia ao vento. Ela carregava uma cesta enorme no topo da cabeça e tinha apenas um braço levantado, apoiando a cesta.

No dia seguinte dei um jeito de escapar de meu pai e fui para a mesma rua para esperá-la. Era uma questão de acaso mas ela passou novamente pela mesma rua. E desta vez ela me olhou pelo canto dos olhos, para não derrubar a cesta enorme, e mostrou um leve sorriso de reconhecimento. Isso foi o suficiente para me instigar. Fui imediatamente falar com ela. Nunca fui tímido, então corri até ela e disse:

- Olá, meu nome...

Ela se assustou e deixou a cesta cair no chão, espalhando todos os pães que trazia no chão.
Ela olhou para os pães com desânimo e depois me olhou com um sorriso estranho, como se escondesse algo atrás dele.

- Que quer?
- Escute, eu te ajudo com os pães se você for comigo tomar um copo de leite. Eu tenho uma moeda.
- Uma moeda não dá para dois copos de leite.
- Nós damos um jeito – eu disse arrematando com o meu melhor sorriso.
- Caia fora, já tenho noivo – disse ela como se zombasse de mim. Depois recolheu os pães e se mandou em seu passo lento.

Que noivo que nada. Eu também não me importo. Vou agora jogar com meu irmão e dessa vez não vou deixá-lo ganhar. Hoje eu vou massacrá-lo, depois quem sabe consigo fazer ele comer terra.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quando o Mundo Chama

Camille corria desesperada pelas ruas de Paris. Não sabia como havia parado lá, simplesmente corria com o pavor a perseguindo. Era noite e as ruas estavam cheias de parisienses e turistas. Ela passava por todos e sentia que não a percebiam. Corria gritando, com lágrimas nos olhos, a boca crispada.

De repente parou no meio de uma praça e gritou. Todos ali convergiram seus olhares imediatamente para ela, com exceção dos outros que obviamente estavam a observando desde que ela apareceu em seus campos de visão. Seu corpo despencou no chão sem sinal de vida. O que quer que a estivesse perseguindo conseguiu alcançá-la.


........................................*


Em algum lugar da Espanha, em algum quarto, dois corpos formavam um símbolo. Cada um virado em uma direção, deitados na cama, a perna de um apoiada nas costas do outro, cabeças distantes, lençóis emaranhados em seus corpos cansados. Eles respiravam calma e profundamente. Os seios se moviam ritmicamente.

- E agora? Ainda acredita ter certezas?
- Mais do que nunca. Cada vez mais tenho certezas mais certas.
- Isso não existe! Não existem certezas, e sim ilusões.
- Cale a boca e não questione minhas certezas. Você faz parte delas.
- Piegas.
- O mundo é piegas. E você é tonta.

O mundo passava em um conto de fadas, nada parecia real. Tudo parecia ser fantasia e sonhos. Tudo era desejos e realizações. Tudo parecia ser eterno.
Parecia ser eterno também a angústia grudada no peito, a lágrima que estava prestes a existir no canto do olho amargurado e trêmulo. O pensamento ficou preso entre alguns neurônios e não se concretizou em ação pelos músculos. O pensamento de olhar o relógio ficou parado no tempo, junto com a lágrima a existir. No momento em que apenas um daqueles olhos encontrasse o relógio, não seria necessário nem mesmo a compreensão daqueles símbolos impiedosos, o feitiço estaria quebrado. Nada mais seria eterno; nada mais teria gosto. O mundo apareceria para cobrar os juros das horas passadas.
Os olhos estavam paralisados na cortina com medo do que veriam, ou do que não entenderiam. Mas enfim eles chegaram ao seu malfadado destino. E fosse aquilo 9:05 ou 5:06, da manhã ou da noite, ou se ali não existia mesmo um relógio, tudo em seguida caiu. O quarto se tornou escuro e úmido, com uma luz fria e azulada. Os sons se desfizeram em um silêncio macabro. Os corpos se tornaram frios; tão frios que queimavam a pele e tornavam impossível continuarem se tocando. Enrugados e velhos, o mundo caiu sobre eles.