sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pés Apressados

Quando eu passei por ela, ela me apontou o cadáver do cachorro no chão. Tão frio e estranho, exalava morte. Seus olhos não demonstravam emoção, apenas observava.
- Está aí há muito tempo?
- É melhor tirá-lo daí enquanto as memórias não chegam – disse deixando escapar um soluço.
A pena que senti dela se confundia com a minha própria emoção. E mesmo assim não sei porque senti isso por ela. Ela foi embora correndo, escondendo o rosto entre as mãos.
- A vida é passageira. – disse repentinamente o ser desconhecido apoiado no umbral da porta - Nos atravessa em segundos e quando chega ao outro lado tudo fica melancólico e sem sentido. O cheiro que está sendo liberado nos envolve como um anzol. Para nós que estamos observando deste lado, tudo parece escuro e sem esperança. Quem saberá o que existe do outro lado. Uma viagem que os curiosos pagam com a vida. Ainda assim nosso egocentrismo nos fará esquecer isso tudo rapidamente para podermos voltar a olhar para nossos próprios pés enquanto caminhamos rumo ao seu encontro. Agora mesmo, para você isso tudo parece desconcertante, sente-se desconfortável, não sabe como se sentir.
- Justamente por não saber é que não tento descobrir; apenas sinto. Todos tentam entender, descobrir. Ninguém sabe o que aconteceu aqui.

Parti para a rua. Caminhei olhando meus pés apressados, enquanto meu corpo continuava a andar lentamente. Meus pensamentos se revezavam e se renovavam não ficando nenhum por mais do quê alguns minutos. Todos eles passavam debaixo de minha vista sem serem vistos. Pensamentos que nunca mais encontraria. Mas não tinha importância.
Encontrei-a com os olhos, parada na esquina a olhar o poste de luz. Estava banhando-se com a luz, tentando se purificar talvez.
- Estamos sujos e poluídos até o final.
Ela pareceu entender, pois baixou a cabeça. Olhou-me com olhos tristes e espelhados. Parecia perguntar algo, algo que eu ainda não conhecia. Encolhi os ombros e desviei o olhar, mas ela continuou a me perguntar silenciosamente.
- Sou uma farsa. Não sei de nada.
Ela já sabia. Só estava querendo se vingar de mim daquele jeito. Mas não fez mais do que aquilo. Percebi sua expressão altiva, quase rindo-se, porque eu não sabia. Aquilo era o suficiente para ela. Sentia-se melhor.
- Eu ainda tenho esperança de conseguir me limpar na luz, mesmo sabendo de tudo isso. Ingênua.
Ela era caridosa, não conseguia me humilhar por muito tempo. Logo depois me entregava de novo o poder e eu o empunhava orgulhoso e desprotegido. Dessa vez fui eu que sustentei um leve sorriso. Ela deixou que eu a escoltasse de volta a sua casa.

Retornando sozinho, eu perdi de vista meu orgulho e voltei meus olhos para os pés apressados que me moviam.