terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Camille

Ela me olhava à distância com a cabeça meio de lado enquanto eu observava em vão o mar. Dei de ombros e me virei para ela:
- Logo chegaremos, e seu tempo terá terminado.
- Tenho a vida inteira pela frente. Isso não depende de mim.
Eu me sentia ridículo com meu terno branco em meio àquele lugar de clima tropical. Meus sapatos de verniz eram chamativos e inconvenientes, mas não tinha mais o que vestir. Ela havia jogado tudo no mar. Pela fúria ou pela graça. Eu nunca sabia se ela estava realmente irritada ou se estava fazendo piadas. Jogar minhas roupas ao mar pode ter sido uma de suas piadas, mas também pode ter sido uma demonstração clara de raiva. Com outra pessoa isso seria fácil de se descobrir, mas ela não era outra pessoa. Ela era Camille; indecifrável. Olhava em seus olhos e via apenas meu próprio reflexo, nada além disso. Ela me refletia como a evitar que eu visse algo em seu interior. Como um espelho que reflete e esconde o que existe atrás dele. Ela se escondia, por medo ou por esperteza.

Naquele dia, à tarde, eu havia feito uma pergunta a ela:
- Onde esteve? O lobo te pegou no caminho? – mostrei um sorriso enquanto dizia essas palavras, mas logo ele desapareceu, quando percebi que seu olhar havia se tornado baixo, escorregadio. Tentei encontrá-lo, crente de que bastaria me deparar com ele para descobrir a verdade impronunciável, mas quando enfim o agarrei não tive certeza. Era vazio, longínquo. Meu corpo gelou em fases; primeiro o peito, depois as pernas e por último a cabeça. Senti o horizonte se entortando. Ela deslizou para longe e eu vi a cena quadro a quadro.

Quando me recuperei fui ao seu encalço. Ela estava de costas e já segurava minhas roupas em suas mãos, apertando-as firmemente. Correu pela porta, se debruçou no corrimão do navio e lançou-as ao mar. O vento as fez circularem e dançarem em muitos movimentos, por um longo tempo até caírem suavemente na água ondulante do mar. Assisti a isso junto dela. Eu olhava as roupas, ela o horizonte. Seus olhos pareciam marejados. Antes da conclusão ela virou-se e começou a andar pelo corredor. Fui atrás gritando que me contasse a verdade:
- Camille! Camille, me diga a verdade. Diga agora. Eu quero saber.
Ela continuava como se nada escutasse, e talvez não escutasse mesmo. Pensei novamente que ela devia ser culpada, e se sentia muito culpada, por isso agia assim. Mas logo pensei que talvez não tivesse culpa alguma e que a minha cruel pergunta fosse uma afronta a sua candura. Pensei em pedir-lhe desculpas, pensei em me ajoelhar. Não poderia perdê-la. Mas logo me lembrei de como seus olhos haviam se tornado escorregadios no exato momento em que lancei a pergunta irônica. Isso me fez reconsiderar o momento e uma raiva me subiu pelo corpo como nunca antes. Logo estava tomado pela fúria e corri até ela:
- Diga a verdade agora Camille! – eu gritei barbaramente segurando-a pelo magro pulso.
Sentia suas veias pulsando debaixo de meus dedos. Ela não ousava me encarar.

Novamente eu senti a insanidade me tomando, levantei seu braço e o joguei com força, dando-lhe um golpe com a palma da mão aberta na face esquerda.
- Puta! É isso que você é!
Logo depois parti cego de volta ao quarto. Bati a porta e me coloquei no chão de joelhos. Havia recebido um golpe invisível. Agora tudo estava acabado. Eu a tinha perdido. Senti algo passar através de mim e uma lágrima pular para o chão. Nunca mais a veria. Por um momento pensei que seus olhos úmidos em direção ao horizonte fossem prova concreta de sua alma magoada por palavras vis. Pensei em me arrepender, e me arrependi, mas ao mesmo tempo não poderia tolerar a possibilidade mesmo que remota de que algo havia acontecido, de que ela não era mais pura. Arrependido, resolvi dar adeus.