quarta-feira, 17 de junho de 2015

Tabaco, um bem comum


Eu andava na rua ao lado de Guido enquanto ele se lamuriava de sua saúde. Estava ele me falando justamente de um mal novo que lhe atacara a garganta, fazendo-o tossir muito, por vezes expelindo grossas placas de muco, (preciso dizer que Guido é um tremendo hipocondríaco, um doente imaginário, sempre aparece com suas histórias absurdas de como conseguiu seus males). Para cortar logo aquela chateação, pois não gosto de ficar ouvindo choramingos dos outros, principalmente quando se falam de saúde, ou de má saúde, então para cortar aquilo de uma vez interrompí-lo bruscamente perguntando se não sabia das novas pesquisas com tabaco.
- Como? Tabaco? Do que está falando?
- Ora, ora. Sim, tabaco. Há tempos andam estudando e fazendo experimentos com a erva e finalmente obtiveram frutos. Bom, frutos na pesquisa, está claro. Acontece que se está atribuindo novos valores medicinais ao tabaco. Ele agora é a Panaceia da atualidade! Veja bem. Se está por exemplo com prisão de ventre, faz-se um chá das ervas e junto enrola-se um cigarrilho. Enquanto toma o chá fuma-se tranquilamente o cigarro, mas esteja preparado, pois o efeito é imediato. Logo não terás mais que se importunar com as dores.
- Não me diga! Isso é sério mesmo? De gente de confiança?
- Claro! Gente de primeiríssima classe, estudados, esteja certo. Pesquisadores incansáveis! Mas preste atenção. Ainda se por acaso tiveres alergias na pele, como aquelas manchas horríveis que atacam o Praxedes durante toda a primavera e o verão, pode também utilizar do tabaco para alívio imediato das dores, e no final de pouco tempo estará curado para a vida desses males. O método é simples, junta-se um pouco de tabaco picado à algumas gotas de água, mexe-se bem os dois e faz-se uma pasta que se aplica nas manchas. Pronto! Imagina se o Praxedes tivesse feito isso logo no começo, não andaria sempre com aquele gorro metido na cabeça cobrindo toda a orelha, suando sempre como uma lontra.
- Ora isso para mim soa como algo fantástico. Imagina que no meu caso eu teria dificuldades de comprovar isso, pois...
- Mas que absurdo! Não diga isso. Tenho certeza de que se tentar vai notar tamanha diferença. Estará muito mais feliz e despreocupado. Aliás, soube também que pode-se usar a ervinha mágica para problemas da garganta e do pulmão.
- Ah, essa é boa agora.
- Palavra! Por certo não tenho a necessidade de lhe explicar o método nesse caso. Mas digamos que basta enrolá-la no papel e acender. Antes de tragar a fumaça faça leves bochechos e gargarejos. Vão beneficiar sua garganta...
- Ah, me perdoe mas agora eu acho difícil acreditar.
- ... Pois agora me lembro. Você não estava tentando para de fumar?
- Uh! Há anos que tento. Tenho sempre o último cigarro à mão para tentar parar. Mas acredito que entrei num círculo do qual não consigo sair.
- Pois aí está! Eu lhe juro que não precisará nunca mais se preocupar em ter que parar de fumar. Basta que use da forma correta o tabaco.
- Pois se é justamente o tabaco o problema!
- Precisamente! Precisamente por isso. Veja, veja bem. Nesse caso se faz um efeito inverso. Fuma-se o máximo que se consegue no menor tempo possível. Você que é um fumante inveterado demorará algum tempo para isso. Mas pense que depois de certo tempo começará a ter enjoos, suadouro, tontura, mas nem por isso deixará de fumar. Fume por mais um pouquinho só e estará livre desse terrível mal. Duvido que alguma vez mais porá um cigarro à boca.
- Ora, basta. Creio que se não apertar o passo não chegarei à tempo ao escritório. Até mais ver, ein.
- Até logo mais, Guido. Passe lá em casa qualquer dia à tarde para conversarmos mais. E mande saudações a vossa senhora!

Guido acelerou o passo e antes mesmo que eu pudesse terminar de falar já não o podia ver mais. Pelo menos agora podia aproveitar a minha caminhada com mais tranquilidade, sem ter quer interromper meus pensamentos por mais ninguém. Já estava ficando difícil acompanhar seu ritmo cada vez mais rápido por causa de uma pequena dor que me atacou a perna direita na semana passada, logo acima do joelho. E pensar na incrível quantidade de pequenas engrenagens que existem só numa perna para que esta se movimente. Não foi por menos que essa dor me apareceu no exato momento em que tive consciência disso. Acho que vou comprar uma bengala.