domingo, 4 de novembro de 2007

Nove e cinquenta e oito. O povo se aglomera na frente das portas do banco. Bancários e pagantes se acotovelam para decidir quem ficará com o rosto contra o vidro da porta (ou contra as portas de vidro). Ninguém entra antes das dez horas, é a regra. Dez horas, os sinos da igreja da rua de baixo soam. O povo aumenta o volume, ensurdecedora celeuma. Um homem caminha em direção à porta sobre o piso de cerâmica. Abre a porta, mas se esquece de tirar-se do caminho e é atropelado pela turba ensandecida. Todos correm, bancários na frente, povo atrás. Todos buscam seus postos. Quando todos os bancários estão de posse de seus assentos não resta ao povo senão suspirar. Suspirar e entrar na fila. E então a briga é para saber as posições na fila. O primeiro está sempre contundido de alguma forma. Então, depois que os paramédicos retiram os corpos invalidados a sineta soa pela primeira vez no dia. O primeiro da fila corre com seus hematomas para o caixa que chamou e fala com tanta rapidez quanto é possível entender. O caixa com seu olhar de enfado trabalha rápido mas sem se exaltar. Seus dedos movem-se tão depressa quando formigas em retirada. De repente escorrega da cadeira e se contorce no chão.

O médico corre, examina e proclama: "Uma severa LER. Repouso absoluto da mão por três meses." Tão rápido o médico terminou a proclamação o tal primeiro da fila pulou por sobre o balcão e assumiu o posto. Tocou a sineta.

Três e cinquenta e oito. Todos os banqueiros estão prontos e à espera. Olhos atentos à pequena porta ao fundo. Quatro horas anunciadas pelo sino sonante da igreja. A portinha se abre, sai o homem encaminhando-se confiante e sempre olhando para o horizonte. Abre a porta e lembra-se de colar-se à parede lateral. Os bancários lançam-se das cadeiras, saltam os balcões e correm para não ficarem presos no banco. Agora é só voltar para casa e dizer aos filhos "Eu fui o primeiro a entrar no banco hoje". Mal sabem eles.