quinta-feira, 24 de maio de 2007

Kurenai no Maboroshi [紅の幻]

Não bastasse a falta de eletricidade por causa do atraso em pagar a conta, o apartamento ficava em uma parte escondida do prédio, não lhe permitindo acesso a luz solar. Nesta penumbra vive Jonas Maldique, um escritor fracassado em luta pelo reconhecimento de sua obra. Já não recebe a semanas e tudo que faz agora é dormir por todo o dia embriagado em sua depressão. A dois dias tudo que estava em sua pequena geladeira de solteiro se estragou, apenas contribuindo para seu enfraquecimento moral e físico. Mal podia pensar, tamanho era o cansaço.

O prédio onde habita é muito peculiar. Alto, muito alto, com muitos minúsculos apartamentos por andar. O andar em que morava era um dos mais altos, décimo quinto, havendo apenas mais dois acima deste. Nessa altura o barulho da rua era praticamente nulo. E analisando melhor, o prédio inteiro era um completo silêncio, como o interior de uma tumba. Não haviam vizinhos barulhentos assistindo a televisão; não haviam passos indo e vindo no andar superior; nem crianças brincando no corredor. Pobres das crianças que fossem obrigadas a morar aqui. Aliás, pobres são todos os que devem morar aqui, pois não imagino descrição melhor para os habitantes deste horrível prédio. E pobre é Jonas Maldique, que nestes minutos passados estava pensando porque será que este prédio, com tantos apartamentos, e possivelmente tantas pessoas, era tão silêncioso. Nunca ele havia escutado um barulho que fosse. Talvez todos ali estivessem como ele, eternamente dormentes. Não lhe surpreenderia isso. Não lhe surpreenderia que todos ali estivessem apenas esperando pela morte. Que ninguém sairia mais daquele prédio se não fosse dentro de um saco plástico. E que provavelmente ele seria mais um dentre todos esses.

Seus pensamentos mórbidos foram interrompidos abruptamente quando algo lhe acertou a testa fazendo-o piscar algumas vezes instintivamente e o libertando do transe hipnótico em que ele mesmo se colocara. Estranhou primeiramente que mesmo estando a tantos dias deitado naquela cama, olhando aquele teto não havia percebido aquilo. Uma goteira? Bem em cima de minha cama? Isso não parece certo. O que é isto?

Ainda aturdido por seus pensamentos e por sua fraqueza demorou a perceber a aparente mancha negra sobre si. Uma mancha que se estendia por quase um metro de comprimento e meio de largura. E uma minúscula fração daquela mancha havia caído sobre ele em forma de gota. Uma pesada gota que o despertou de seus sonhos. Não. Isto não é uma goteira comum. Será vazamento de esgoto? Sem nenhuma dúvida pode se sentir um cheiro. A gota, assim que se rompeu, exalou o seu mal cheiro. Mas este não parece ser o fedor seco e abafado de esgoto.

Será mesmo?! Algo tão insólito quanto isto pode estar acontecendo? Com ninguém mais que este coitado que já agoniza seus últimos e tão próximos momentos finais?

Jonas teve força suficiente para arregalar os olhos, como que para ver melhor, como que para demonstrar sua surpresa para as paredes da casa. Quando uma segunda gota começa a se formar, e logo estando pesada o suficiente se desprende da mancha levando um pouco de sua essência, e Jonas grita. Grita grave e demoradamente, até as horas passarem e a gota lhe acertar. Ainda com os olhos (agora) fechados, é sangue, sussurra. Quem não perceberia este cheiro. E quando corajosamente abre os olhos, percebe que estranhamente a mancha antes negra agora assume um tom escuro de vermelho. Ele tenta se levantar antes da terceira gota se formar mas não consegue. E não entende porque, seu corpo parece de chumbo, um peso incrível pousa em seus braços e pernas. Falha até mesmo em se arrastar. Grandessíssimo é o esforço que ele faz para virar a cabeça, mas nem isso ele consegue. Devia ter tentado sair antes, desperdiçou suas forças em um grito inútil, e agora está fadado a tortura.

Quanto tempo já se passou? Um dia, uma semana, semanas? Não se sabe. A escuridão do quarto/banheiro é eterna. Dias passam sem serem percebidos. Quanto tempo ficarei aqui?, pergunta. Já se passaram quantos anos?

Seu corpo magro e desnutrido afunda na cama; seu rosto cansado e sua camisa respingados de sangue; seu colchão encharcado de fluidos; e o fedor que prevalece no ar, sendo respirado eternamente. Eternamente. Eternamente...