sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Juntos

Foi encontrada pendurada com a corda no pescoço. Exatamente no meio do quarto, pendendo abaixo do buraco da lâmpada no teto. A polícia fazia o cerco na porta do quarto afastando os curiosos. No chão estava uma criatura, clamando "não!"repetida e pausadamente. Um garoto de mesma idade, com lágrimas dos olhos ao chão. Dizia ao carpete que podia ter evitado aquilo, que era sua culpa. Ela estava grávida, como saberiam todos depois. E ele fora embora. Não era seu filho. Nem ao menos sabia que ela estava grávida. A dois dias ele se fora; cansado; não aguentava mais. Sabia que a saudade seria a beira do insuportável; mas já estava beirando o insuportável ao seu lado.

Não eram nada. Apenas amigos. Não tinham nada em comum. Apenas carregavam um os problemas do outro.

O garoto continuava prostrado de joelhos no chão, chorando copiosamente. Cabeça caída. Sentia a dor da saudade eterna. E subita a dor aumentou perceptivelmente. Não era mais a dor da saudade. A voz lhe sumia gradualmente, engolfada pela dor do coração hiperpulsante. "Parece ter dormido" pensaram alguns. O coração parou. Seguiria agora ao outro mundo junto dela. Ou, se este for o único mundo, seguiriam juntos ao esquecimento.