sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Mundos Pessoais

- Diga, Osório. Já contou sua teoria ao Palermino? – perguntou o inglês.
- Não é uma teoria, é apenas uma conjectura. E não, não contei.
- De que se trata? – questionou Palermino com sua curiosidade costumeira.
- Do mundo.
- Então conte, que já me cativou.
- Conto:

Certamente todos aqui conhecem tais doenças chamadas mentais como a paranóia, o estado catatônico e outras mais. A partir destas doenças raciocinei que o cérebro é onipotente dentro do mundo de cada um. E explico: como explicar o fato de que alguns gostam de uma cor e outros de outra cor; uns gostam de um sabor, outros não gostam; se não com a idéia de que cada um tem seu próprio mundo? Pois me parece que se tudo fosse claro, este é bom, aquele é ruim, não haveria gostos, não haveria preferências diversas. Imagine quem gostaria de comprar aquele sabão em pó que é ruim, que estraga as roupas. É óbvio que escolheria o bom, pelos benefícios. Assim digo que cada um vive no seu mundo pessoal. E digo ainda que este mundo é construído por nós mesmos, cada um o seu. Mas não penso que isso seja consciente, ou não existiriam tantos infernos. Assim como pouco a pouco o homem constrói a paranóia, pouco a pouco também o homem constrói seu mundo. Suas cores, suas pessoas, suas tragédias. Se quiser que o céu lhe seja vermelho, será vermelho. Se quiser que seja azul, será também. E quando lhe falarem do azul do céu, ouvirá que lhe falam do vermelho do céu. Assim como nos dizem que estão vendo algo e juramos que o que estamos vendo é outro algo que não aquele. Assim como vemos as pessoas como queremos; boas, más, educadas, inconvenientes.

Como num longo sonho o cérebro está trabalhando para criar o mundo. Assim como está trabalhando para nos refutar qualquer pensamento de que aquele mundo e irreal. “Não tinha esta pessoa morrido anos atrás? Mas estou a vendo. Estamos conversando e bebendo juntos. Posso tocá-la”. “Fulana diz que sou feio. Mas estou me vendo no espelho, os traços limpos e agradáveis, a simetria do todo. Sinto prazer em me ver”. Reforço que isso tudo deve ser inconsciente e que, portanto, o exemplo do céu não é aplicável, provavelmente porque crescemos ouvindo sobre o azul do céu. Mas quando algo que não conhecemos nos aparece, cada um julga como quer.

Enfim, isto é tudo que tenho até o momento, pois como sabem não sou psicanalista ou nada parecido para analisar o assunto mais profundamente.

- Magnífico! – disse o inglês terminando o café.
- Discordo! – retrucou Palermino - Não faz nenhum sentido - No que tornou o inglês:
- E o que me diz da Mariana, aquela graciosa garota que todos adoram?
- Não a suporto! Asseverou com as bochechas cheias.

Osório e o inglês gargalharam uníssonos entreolhando-se confidencialmente.