terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Introspecção

A água estava escura e imóvel, mas quente. Ela cabisbaixa pensa. E vê algo. Um dedo saindo esticado da água. Depois uma mão, um braço, uma cabeça.
“Então, nesse mesmo dia, à muito tempo atrás, você nasceu?”. Mexe a cabeça. No pequeno movimento a ponta dos cabelos encosta na água, se afasta encharcada. Uma gota cai da ponta dos cabelos até a água levemente ondulante. Morde o lábio inferior. “Muito tempo. Está desgastada, enrugada”. Aperta mais forte. Apóia-se na ponta dos pés na borda da banheira e a encara. “Sei como é isso. Mas sou apenas uma sombra”.

“Vou te contar uma história. Um dia ela morreu. Fim”. Um dia... “E a sombra se desvaneceu. Todo dia você é um rascunho. Mas no último dia você é um trabalho pronto. As pessoas vão olhar, admirar, criticar, e esquecer”.

Uma outra gota cai na água e a onda produzida arrasta a escuridão. Vê seus joelhos. Odeia seus joelhos. “Até outro momento”. A luz se acende e o reflexo na água ofusca seus olhos. Ela sai da banheira, coloca um casaco pesado por cima da pele e sai para as ruas vazias. Pára na frente de um prédio, olha para uma janela e espera uma coisa. Não há luz. Dormem. Ela nunca chora, mas agora desejaria poder.

Mais uma noite de vigília. Sentimentos desesperados. Nostalgia cruel. Anos passados. Vida desperdiçada.