sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Vida

Ela entrou na casa; em cada canto, em cada cadeira, em cada sofá jaziam os corpos trêmulos, espasmódicos, suspirosos. Estavam todos drogados, extasiados de vida; tinham vida a sair pelas narinas. E ela continuou andando através desses seres com repugnância e horror na face. Via os rostos contorcidos, as pálpebras tremulantes. Em um desses rostos encontrou Álvaro. Estava igual a todos os outros; suspirava. Quando percebeu os movimentos próximos, abriu os olhos e a reconheceu. "É soberbo", disse com voz sumida. Uma lágrima escorre pelo rosto dela, "eu sei", "já se passaram quantas horas?", "dezessete. Já é o suficiente?", ele diz que sim com a cabeça; Ela afasta-se.

Logo ele começa a acordar do torpor. Mexe-se lentamente, como uma preguiça. Apóia-se na cadeira, senta mais ao fundo, curva o tronco para a frente segurando a cabeça com as mãos. Os lábios contraem-se, as bochechas caem; ele sente o gosto amargo na boca. Ela volta, "vamos?", "sim", responde ele levantando-se da cadeira lentamente. Ela vai à frente martelando os tacos soltos com os saltos altos e ele, logo atrás, os varre arrastando as sandálias.